Carta de bispo bate record de compartilhamento no Facebook

As orientações do bispo de Iguatu sobre as missas de cura e libertação bombaram na página do meu facebook. Arrepiante. A maioria dos que curtiram são pessoas adeptas da “oração em língua” e das missas de “cura e libertação”.

O objetivo principal da publicação foi o de informar aos seguidores do face o conteúdo da carta pastoral do bispo de Iguatu, destinado ao clero e ao povo da sua diocese. Ponto.

Não interagi muito porque o tema em questão não faz parte do meu campo de interesse. Para mim, mais importante do que gastar energia discutindo sobre as diversas expressões de rezar (reza em língua, repouso assim ou assado, missa de cura, de libertação, de alienação, etc.), prefiro gastar energia falando da Igreja do Papa Francisco, da Igreja de Jesus Cristo, das pequenas comunidades eclesiais, que buscam, pouco a pouco, libertar o povo da alienação religiosa, social e política.

Achei fabuloso a curtição e os comentários porque podemos superficialmente diagnosticar os modelos de Igreja que rondam na cabeça das pessoas que leram a notícia. Podemos sem muito esforço saber: quem é o público ou parte do meu público que curte minha página no face? O que mais lhes interessa? O que pensam sobre a Igreja e sobre os movimentos pentecostais? Em muitos comentários podemos também visualizar o alto grau de preconceito, de ignorância e até de intolerância com relação às várias correntes dentro da Igreja.

De fato, o impactante foi perceber a grande repercussão da matéria. Antes, nunca tinha visto algo parecido nas dezenas de outras matérias publicadas. 

Pergunto-me: por que chama mais atenção a missa de “cura e libertação” do que a missa da comunidade do meu bairro? 
Por que falar na rede de “oração em línguas” dá mais ibope do que falar da ousadia profética do Papa Francisco? 
Por que pra muita gente falar de “repouso no espírito” é mais arrepiante do que falar de Reino de Deus, de justiça social, de formação da consciência cristã e política, enfim, do Evangelho? 
Por que para muita gente, o cristão e, mais ainda, o padre devem refugiar-se dentro da Igreja, falar de uma espiritualidade desvinculada dos problemas sociais, desvinculada da cultura de morte infiltrada em nossas organizações? 

Diante dos comentários de muitos dos nossos colegas, pergunto-me: Afinal, as missas de “cura e libertação” estão curando o quê? As missas estão libertando ou estão doutrinando cegamente as pessoas? Estão libertando ou estão aumentando a taxa de alienação? As missas de “cura e libertação” estão injetando os sentimentos de Jesus Cristo na vida das pessoas, levando-as a viver uma fé misturada com os problemas sociais do seu bairro, da sua rua, da sua cidade, ou, ao contrário, as missas estão levando as pessoas para o mundo das maravilhas, quase mágico, onde para viver nele é preciso fechar os olhos, com a ajuda de um fundo musical e uma voz doce?

Não sou contra a nenhum forma de oração dentro ou fora da Igreja. Se a oração em língua me faz mais humano, mais honesto, mais solidário, mais cristão, mais consciente da realidade que me cerca, então, viva. Penso, da mesma forma, com relação à missa de “cura e libertação”. Se ela cura e liberta da minha cegueira moral, cultural e política; se a missa me leva a um compromisso verdadeiro com o Evangelho, com o Reino de Deus, não ficando omisso e conivente à realidade de morte que nos cerca, então, bem-vinda. Caso, contrário, o bispo tem razão de convidar todos os adeptos dessa linha de Igreja e orientá-los para não deturpar tanto Jesus Cristo e o seu projeto de vida.

Desse modo, faz bem ressaltar a seguinte fundamentação do bispo, na sua carta, na qual explica os riscos que certos movimentos pentecostais podem causar à Igreja:

“No passar dos anos temos assistido, dentro e fora da Igreja, o surgimento de movimentos pentecostais ou não, com ênfase no subjetivismo com distanciamento da realidade, prevalecendo uma espiritualidade intimista e emocional, contrariando a eclesiologia do Vaticano II cuja principal característica refere-se ao aspecto comunitário da Salvação” (Cf. Capítulo II da Lumen Gentium).

Com relação à atitude do bispo, podemos nos perguntar: 
O que levou o bispo a tomar essas conclusões radicais?
Que práticas abusivas os grupos pentecostais da Igreja Católica faziam na diocese de Iguatu?
Concretamente, o que vai mudar com a proibição das missas de “cura e libertação” para as pessoas que alimentam sua fé com esse tipo de espiritualidade? Será que os adeptos da “oração em língua” vão mudar sua forma de oração?

Creio que não. Quem reza em língua vai continuar rezando e o padre que preside a missa de “cura e libertação” vai continuar presidindo a mesma missa. Talvez, ele mude somente o nome, chamando, por exemplo, de missa da graça, missa da saúde, missa dos ungidos ou outro nome qualquer.

O que deve ser feito, na minha opinião, é pensar, a nível de CNBB, orientações mais claras e um acompanhamento mais sistemático de todas as novas linhas de espiritualidades. Para isso, precisa-se de padres preparados para lidar com esses grupos porque proibir não educa, muito menos, evangeliza. 



Comentários

  1. Você é excelente em suas colocações; quando critica e quando coloca seus pensamentos. Amei o texto, seria bom que muitos irmão lessem e refletissem sobre suas bem colocadas palavras a respeito do nosso modo de vermos a igreja ao nosso redor, não nos fechando para a realidade e vivendo no mundo de "Alice no país das maravilhas". A muito que a nossa igreja estava precisando de uma pessoa como você, que se coloca de forma clara e sem medo de perder nada ou em troca de benefícios. A igreja precisa ABRIR os olhos ao nosso redor como você bem colocou, e enxergar a realidade que nos cerca em toda sua conjuntura social, econômica e religiosa também. Parabéns por essa colocação e tantas outras as quais você vem se posicionando de forma cidadã e religiosa. Abraço.

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  2. Delicada essa situação... não só em Iguatú, mas em muitas cidades, inclusive na nossa, as missas da Graça aqui também é um sucesso... Todas as missas não são de Graças? ou seja uma ação de Graças! acho que nessas missas de orações pentecostais, as pessoas se afastam um pouco do Deus comunitário e particularizam a oração... sou mais a oração comunitária. Nós e Deus!

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  3. Me chamou atenção vc ter postado e não ter feito nenhum comentário a respeito. Sou simpatizante da RCC e acho que comecei a estudar e conhecer a doutrina católica depois da Renovação Carismática. E é exatamente por estudar os documentos da igreja que não vejo necessidade desse tipo diferenciado de missa. O Concílio Vaticano II fala que a Eucaristia perpetua o sacrifício da cruz, portanto, da doação da vida de Jesus por nós. E não fala de celebração onde curas irão ocorrer. O Concílio fala, também, da Eucaristia como sinal de unidade, o que entra em contradição com o que vem se propagando de que Jesus vem curar e libertar em algumas missas e em outras não. Curar é ação divina. Deus cura sempre. Cura ordinariamente pelo uso da medicina e até do conhecimento popular das nossas mães e avós e cura extraordinariamente, no que chamamos de milagre. O milagre vem da fé da pessoa e do poder e do querer de Deus. Qualquer pessoa que pesquisar vai ver o que os documentos da CNBB falam a respeito, um dos documentos fala o seguinte: "O compromisso social tem sua raiz na própria fé; deve ser manifestado por toda a comunidade cristã, e não apenas por algum grupo ou pastoral social; uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos e à luta para vencer as injustiças celebra indignamente a liturgia". Daí entram os pontos que vc tão bem ressaltou: “Existe algum compromisso social de luta para vencer as injustiças nas celebrações de “Cura e Libertação”? Se sim, qual? Como? E Onde? Se não, penso que celebram “indignamente a liturgia”. (SÃO PALAVRAS DA CNBB). Se somos uma igreja una, santa e católica devemos primar sobretudo pela obediência.

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    1. "“Existe algum compromisso social de luta para vencer as injustiças nas celebrações de “Cura e Libertação”? Se sim, qual? Como? E Onde?

      Uma pessoa ungida com o Espírito Santo será capaz: de corromper ou ser corrompida? de praticar injustiça? de praticar o mal? Isso não seria uma luta conta as injustiças e principalmente a social?

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  4. Qual o sentido da oração em línguas? Devia ser uma linguagem onde todos se entendem, e entender-se não somente na língua mas sobretudo na comunhão. Por que preciso repetir havaianahavaianahavaianahavaiana, se todos falam português? E na maioria das vezes sequer têm comunhão, solidariedade entre si? Que deus é esse que cura e toda semana eu preciso da mesma cura? Sim, porque o Deus que nós acreditamos liberta de uma vez por todas. Liberdade dada a conta gotas é sinônimo de prisão travestida. Tem muitos irmãos nossos, frequentadores de missas de cura que vivem presos a tais cerimônias. Que andam léguas atrás de tal padre que façam tais celebrações. Vivem presas pela religião.

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  5. Eu penso assim: hoje as pessoas estão profundamente desapontadas com as próprias pessoas, tem um a sede de Deus e o procura para aliviar suas angústias, tensões frustrações, etc. Sendo assim enchem as celebrações que através de uma profunda ação espiritual, como a adoração do Santíssimo na nossa igreja. Dessa forma se deixam até ser enganadas por lobos disfarçados de cordeiros como vemos diariamente nas TVs.
    Nossa igreja oferece isso de forma diferente, sem usurpar e ludibriar o fiel, principalmente financeiramente.
    Na minha opinião o que transforma a sociedade é o ser, isso é bem claro né? Não precisa nem filosofar pra se chegar a uma conclusão. O estado que é causador do bem ou do mau estar social é compostos de seres sociais, se esses serem forem essencialmente ungidos no Espírito Santo, praticantes através disso, dos ensinamentos do evangelho, eles seriam incapazes de se corromper, de praticar algo que ferisse seu semelhante e dessa forma teríamos uma sociedade justa. Muito utópico o que quero que aconteça, mas como acredito que através da fé o homem se transforma em homem bom, será esse homem transformado que será o político transformado.
    Isso independe da forma que essa conversão chegue: se através de uma corrente pentecostal, apostolado de oração, pastoral social. Dessa forma não vejo mal nessas celebrações que ora estão em debate.

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