quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Retrospectiva 2015: o que de mais relevante levo na sacola da vida para 2016?

Diante de tanta aprendizagem que obtive, em 2015, o que destacaria como mais importante, no último dia do ano?

- Aprendi que a vida não vale a pena ser vivida, se conheço todo o mundo e não conheço a mim mesmo; que o silêncio reflexivo é a via mais segura que me leva a um encontro profundo e verdadeiro, com a essência dos mistérios que povoam a minha própria humanidade;

- Aprendi que o amor desapegado requer ousadia e que o desamor é covardia. Não importa a quem amamos, onde e quando amamos, o que vale é amar, antes que seja tarde demais;

- Aprendi que, na inédita era do conhecimento em rede, quando tudo está acessível a todos, ser ignorante é uma questão de escolha. Toda pessoa conectada pode pesquisar qualquer objeto ou fenômeno que interesse a ela, gratuitamente, sem sair do espaço onde se encontra;

- Aprendi que vivemos em bolhas viciosas - conceitos, dogmas, opiniões, relações, crendices, etc. - e feliz quem tem a coragem de estourá-las, diariamente, a fim de se recriarem e se alargarem sempre mais nossas percepções;

- Aprendi que o sentimento mais angustiante, que bloqueia e corta nossas assas, é o medo. O medo de si mesmo e do outro, o medo de errar, de se expor, de expressar sua própria opinião, de sonhar alto, de acreditar no impossível. Quem vence o medo, vence o mundo;

- Aprendi que navegar sem bússola faz sentido somente nas divagações feriais da vida; que não chegarei ao porto das minhas metas, se não sei a direção e as ferramentas necessárias para chegar ao destino planejado;

- Aprendi que querer dar resposta a tudo é um ato arrogante e medíocre e que toda resposta, mesmo sendo bem fundada, deve ser sempre acolhida no campo da dúvida;

- Aprendi que todo dogmatismo consciente ou inconsciente aliena o ser humano, o faz estúpido; que todo dogmático - mesmo se achando livre, no seu reduto ideológico e cultural - não pode ser considerado uma pessoa, de fato, livre, por está preso a certos códigos, impedindo, assim, de pensar com autonomia e de construir, sem amarras, uma personalidade própria;

- Aprendi, também, que é preciso coragem para pensar diferente do convencional rol cultural, relacional, religioso e político. Pensar diferente não causa apenas solidão, como dizia certo filósofo, mas também provoca ruptura e até afastamento de velhos amigos. 

Religião

- Aprendi que muita gente faz da religião um meio para viver com liberdade, consciência e responsabilidade a sua missão no mundo. Que, bem diferente de ser “ópio do povo”, a religião é um ambiente de encontro libertador e verdadeiro do homem consigo mesmo, com o outro e com Deus;

- Aprendi que é necessário e urgente um “Vaticano II” na Comunicação Eclesial do Século XXI; que não faz sentido viver na atual cultura digital usando as mesmas estruturas mentais e comunicativas do Século XX; aprendi que a cultura digital não deve se converter à comunicação eclesial analógica, unidirecional, mas deve ocorrer um procedimento oposto: esta submeter-se àquela;

- Aprendi que, com a massificação das redes digitais, todas as organizações, dentre elas, a Igreja, vão se reinventar: passarão por transformações profundas. A descentralização é o estopim da revolução em curso. Na rede, todos podem acessar os livros sacros, doutrinais e devocionais, de qualquer lugar, sem pedir licença a nenhum centro. Logo, pouco sentido faz preservar estruturas físicas e cognitivas centralizadoras, com hierarquias rígidas, em uma cultura digital sempre mais descentralizada, fluida e horizontal;

- Aprendi que estudar o complexo mundo digital é o que há de mais relevante, para quem quer interagir e servir melhor às pessoas, que povoam as praças das mídias digitais;

Política

- Aprendi que a Política do “P” grande continuará sendo a principal promotora da dignidade e da liberdade humana, através do serviço à coisa pública e do cuidado com esta. Aprendi, também, que o sistema político vigente, independente do partido, está obsoleto, não representa a população, muito menos responde aos anseios básicos dela, por continuar usando velhos conceitos e viciosas práticas de séculos anteriores;

- Aprendi que democracia sem educação é falácia; que democracia sem cidadão consciente dos seus direitos e deveres é presa fácil para o populismo, fisiologismo, fanatismo e todo tipo de malandragem;

- Aprendi que “democracia” não é apenas um sistema de governo manipulado, muitas vezes, por grupos políticos autocráticos. Democracia é um estado de alma, um modo de vida. Antes de o político pertencer a um sistema democrático, ele precisa ter uma vocação política, sentir-se “consagrado” à missão, com o intuito de cuidar do povo, sem distinção, agindo com ética, amor e respeito.

Estudo 

- Termino 2015, saindo de um certo pessimismo ingênuo, que carreguei durante anos, para uma percepção consciente e otimista dos avanços tecnológicos, por perceber a importância dos mesmos na aceleração da qualidade de vida do ser humano.

- Aprendi que, para o conhecimento acadêmico, não basta querer pesquisar um problema ou um fenômeno, se não me ancoro em teorias e correntes de pensadores que estudaram a fundo aquele problema/fenômeno. No tradicional modelo de ensino, as minhas teorias e pesquisas só terão validade, depois que passarem pelo crivo acadêmico;

- Aprendi que os pensadores da Escola Canadense de Comunicação, com destaque para McLuhan e Pierre Lévy, dispõem de lúcidas teorias que interpretam o complexo universo da cultura digital emergente. Assim, aprendi que as Revoluções Cognitivas e Tecnológicas são provocadoras das grandes mudanças paradigmáticas na História da Humanidade;

- Aprendi que, por trás de qualquer pensador, cientista, teólogo, escritor, há tecnologias cognitivas que lhes possibilitam a realização dos seus objetivos, seus valores, enfim, influenciam na formação integral do ser humano;

- Longe de entrar no rol dos tecnicistas e deterministas, aprendi que não entenderemos as revoluções culturais, sociais, políticas e econômicas, ao longo da História, nem muito menos o nosso Século XXI, sem conhecermos o motor cognitivo e tecnológico que se esconde por trás das grandes guinadas civilizacionais;

- A partir do polêmico conceito de que “O meio é a mensagem”, aprendi que não podemos pensar a cultura e o ser humano desvinculados das tecnologias. Independente do conteúdo ou do objeto que as tecnologias comunicam/transportam, elas são decisivas, por serem extensões do nosso sistema físico e nervoso. 

- Não faz sentido, pois, pensar o homem, sem pensar nas tecnologias que o fazem humano. Diferente do que pensa o Senso Comum, as tecnologias nos humanizam. Aprendi que cada tecnologia tem o poder de influenciar nossos sentidos, nossa consciência e, portando, nosso modo de ser, de pensar, de rezar e de relacionar-se;

- Aprendi, através de cursos assessorados por Carlos Nepomuceno, que ter percepção da nossa percepção é um passo gigantesco na direção da autonomia dos nossos conceitos e da nossa própria identidade. Aprendi que, no balcão das percepções, não há verdades perenes, intocáveis, mas verdades provisórias, fluidas. Termos consciência disso, reduz nossa vergonha de expressarmos, publicamente, nossas ideias, teorias e curiosidades. 

Enfim,
aprendi que “o que vale é o que importa”. Meu irmão José tem razão quando sempre repete essa frase, em tom de brincadeira. Hoje, para quem vive na “anarquia” da rede, afogado no mar informacional e relacional das mídias digitais, se salva quem realmente sabe o que é mais importante para sua vida, sua pesquisa, seus objetivos. Sem ter foco na área específica de interesse, cuidando para não se perder no complexo mundo de abstração que a rede oferece, dificilmente atingiremos, com êxito, nossa meta. 

Gratidão!

Entrarei, em 2016, com um forte sentimento de gratidão a Deus pelas conquistas realizadas em 2015:

Gratidão a Deus pela missão assumida na Paróquia de Fátima, na Faculdade e nas Pastorais Sociais da Diocese. Muito obrigado a todos e a todas que fizeram parte da minha caminhada, ao longo do ano;

Gratidão a Deus pela minha família, porto seguro das minhas alegrias, esperanças e frustrações, pessoas com quem posso, sempre, contar e, nelas, confiar;

Gratidão pela Internet na minha vida. Sem ela, não teria alimentado parte de minhas relações, minhas amizades, meus estudos, meus trabalhos, minhas orações e meu entretenimento;

Gratidão aos meus amigos e às minhas amigas, de perto e  de longe; ao meu amigo Cornélio, companheiro de missão e de residência. Gratidão a todas as forças vivas da Paróquia de Fátima, protagonistas do dinamismo pastoral nas comunidades, grupos e movimentos;

Gratidão aos professores, escritores, jornalistas que compartilharam, voluntariamente, suas informações e pesquisas; uma gratidão particular ao Professor e Pesquisador Carlos Nepomuceno. Devo a ele parte do meu interesse pelos estudos na área da cultura digital;

Gratidão aos queridos membros do Laboratório de Comunicação Digital Eclesial, por entenderem a relevância do tema e por compartilharmos, juntos, nossos estudos, nossos anseios e nossas curiosidades.

Que venha 2016:
  • com saúde, paz e um abençoado inverno;
  • com sentimentos puros de amor, perdão, amizade, justiça, solidariedade e respeito;
  • com perseverança e foco nas metas;
  • com desejo de continuar servindo e aprendendo;
  • com relações novas, ideias novas, lugares novos, sempre aberto ao “novo”;
  • disposto a mudar o que for preciso (percepções, crenças, ideologias, etc.) a fim de ser  uma pessoa melhor e mais humana.
  • enfim, que 2016 seja coberto de bênçãos celestiais para todos nós.
Um beijo de gratidão, amor e amizade no coração de cada um.

Obrigado 2015!
Bem-Vindo 2016!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Por que criar um laboratório participativo de comunicação digital eclesial?

O laboratório - formado por um grupo de estudo no Facebook, que se reune, presencialmente, duas vezes ao mês - é fruto das minhas angústias e dos meus conflitos racionais sobre o mundo digital em que vivo. Esses dilemas foram provocados, inicialmente, quando tive a oportunidade de focar parte dos meus estudos em Roma, na área de Comunicação Digital e persistem, ainda, alimentados pela boa parte do tempo que passo inserido no ambiente digital.

Diante dos efeitos das mídias sociais digitais provocados na minha vida como também na sociedade em geral, comecei a perceber que não bastaria fazer uma simples adaptação das mídias digitais ao nosso convencional mundo analógico ou, simplesmente, querer fazer ajustes incrementais para conviver de forma saudável na sociedade-rede.

E, como não poderia ser diferente, percebemos que a revolução digital trouxe consequências que desestabilizam e modificam, radicalmente, a convencional estrutura cognitiva, ou seja, afetam, diretamente, o nosso modo de pensar, a nossa cultura e, pouco a pouco, as nossas organizações. Constatamos, assim, que a chegada do “digital” é semelhante a outras tecnologias disruptivas que modificaram, consideravelmente, a cultura humana, como, por exemplo, a chegada da escrita, do alfabeto e a do papel impresso.

É evidente que a progressiva massificação dos meios digitais - quase metade da população mundial conectada à internet - está iniciando um processo de mudança cultural na sociedade, causando uma descentralização das ideias, quando cada pessoa se empodera, ao possuir, pela primeira vez, o seu próprio canal de comunicação, conectado em rede mundial, através das mídias digitais e, por meio delas, expande suas narrativas, seus interesses, interage, sem barreiras, com o mundo ao seu entorno.

Assim, as novas tecnologias digitais, que descentralizam e democratizam as ideias, constituem as bases para todas as grandes mudanças em andamento: o poder da mídia - todo mundo tendo acesso a tudo, como também todo mundo se comunica através dos canais (blog, Facebook, Twitter, Instagram, etc.) - é o que há de mais revolucionário na sociedade pós-internet.

Não é a primeira vez que a humanidade vive uma ruptura de mídia tão radical assim. Ter conhecimento das outras revoluções na comunicação deveria ser o primeiro passo para quem quer prognosticar o que significará a cultura digital para as próximas gerações.

Seguindo esse viés, podemos indagar: Por que aconteceram revoluções tecnológicas tão impactantes assim na História Humana? Quais são as causas? Qual é a finalidade? Para entendermos as respostas que virão depois, ao longo do nosso laboratório, deveríamos fazer outras perguntas: por que inventaram o analgésico? Por que inventaram o navio, o avião? Por que inventaram casa, camisa, cadeira?

Se analisarmos cuidadosamente, veremos que, por trás de todas as invenções tecnológicas, há um desejo humano de sobrevivência, de redução do sofrimento, de obter mais qualidade de vida, ou seja, as invenções surgem para responder a uma latência na sociedade.

No caso das tecnologias disruptivas (chegada da fala, da escrita, do alfabeto e da imprensa), um elemento fundante que marca cada era é o fator demográfico, isto é, elas surgem com a finalidade de responder, progressivamente, à complexidade causada com o aumento populacional.

Assim como ocorre nas demais mudanças tecnológicas, o choque cultural é natural, faz parte das primeiras gerações que vivem nas mediações das rupturas de mídia. Com o digital, vivemos o início de uma nova era na História Humana: o início de uma nova civilização, e a sociedade, como sempre, não está preparada  para fazer o upgrade, as mudanças necessárias provocadas pela rápida expansão da internet. Esse despreparo ocorre, uma vez que se trata de uma macrorruptura, conforme declara o filósofo da cultura digital, Carlos Nepomuceno: “Nossa taxa de abstração, de visão estratégica, e de longo prazo está bastante baixa”.

A internet é um tsunami – com as suas inovações, surpreendeu a todos e alterou quase tudo: o modo de estudar, informar, produzir, relacionar-se, controlar, organizar, enfim, ela conseguiu modificar o modo como vivemos e somos. 

Diante desse contexto pautado na rapidez, percebemos que o cérebro humano reage, fecha-se como mecanismo, para salvar seus códigos morais, seus princípios, seus dogmas, seu convencional mundo cultural e organizacional.

Então, mediante todas essas mudanças veiculadas na nossa sociedade, com o advento da cultura digital, situamos o nosso laboratório de comunicação digital, com foco na realidade eclesial, cujo intuito é ser um espaço de diálogo, de reflexão e de estudo sobre a influência dos algorítmicos (digital) na cultura e nas organizações, especialmente na Igreja. Objetiva, também, criar mecanismos teóricos e metodológicos que direcionem as organizações, entre elas, a Igreja, no progressivo e pedagógico caminho da conversão digital.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Uma noiva esquisita, mas é com ela que vou...

Alguns colegas ainda continuam estranhando o meu noivado com o pensamento da Escola Canadense de Comunicação. Literalmente, transformei meu blog em um ambiente de reflexão, na área de comunicação digital, partindo sempre da corrente filosófica e teórica de McLuhan, Pierre Lévy e seus companheiros.

Escolhi-a porque é, na minha percepção, a melhor Escola que estuda e explica as rupturas de mídia na sociedade e as suas consequências nas organizações e, em geral, na vida humana. Por exemplo, o que significa a chegada de uma nova mídia disruptiva na sociedade? Na História, quais foram as principais revoluções culturais ocorridas e qual a influência da mídia nessas revoluções? A Escola Canadense nos faz perceber as grandes rupturas cognitivas provocadas pelas mídias, ao longo da história humana.

Antes, estudava as mídias de forma aleatória e individualizada, preso aos efeitos de cada tecnologia na atual cultura, fixado no presente, sem fazer uma analogia com as revoluções comunicativas ocorridas no passado. Partia sempre de uma estratégia indutiva, analisando, por exemplo, o impacto do Twitter, Facebook, ou outra mídia qualquer, dentro de uma determinada instituição. 

Hoje, em vez de ficar preso ao “mosquito” que está picando as organizações, procuro ter uma macrovisão do cenário, percebendo as mudanças mentais, culturais, importadas pelas mídias disruptivas, no decorrer da história.

Quando analisamos a História, não corremos o risco de cometer um diagnóstico abstrato e superficial do presente. Ao contrário: passamos a lê-lo com mais propriedade, com o intuito de nos projetarmos para o futuro, utilizando-nos de fundamentos históricos e livrando-nos de possíveis “achismos”. A título de ilustração, ao observarmos o presente mundo digital, perguntamo-nos: em que momentos na história, podemos visualizar algo parecido como este, que agora vivemos? Sem muito esforço, percebemos algo semelhante em alguns períodos da história humana.

Seguindo esse viés, percebemos que McLuhan - o pensador comunicólogo do meado do século passado - além de apresentar os efeitos da mídia na sociedade, no decorrer da história, constrói as bases filosóficas e teóricas para interpretar a comunicação do século XXI. Com ele, percorro um caminho que está revolucionando o meu modo de perceber o universo da comunicação no qual estou inserido. 

Continuo colado na sua principal obra, “Understanding Media”, que foi lançada nos anos sessenta. Os últimos textos aqui publicados são resumos comentados de temas, na referida obra, abordados. Analisando esse clássico da comunicação, que vê os meios como extensões do nosso corpo, verificamos que McLuhan, no capítulo de hoje, afirma que a camisa e a calça são meios de comunicação, extensões da nossa pele. 

De acordo com esse raciocínio, constatamos que a casa onde moro é, também, extensão dos nossos órgãos, “prolonga os mecanismos internos de controle térmico de nosso organismo”. Ou seja, "se a roupa é uma extensão da pele para guardar e distribuir nosso próprio calor e energia, a habitação é um meio coletivo de atingir o mesmo fim”. (McLuhan, 1964, p. 143).  Da mesma forma, a cidade igualmente expande o corpo humano e é feita com a finalidade de atender às necessidades da pessoa bem como das organizações sociais.

Morando na cidade, o homem letrado e civilizado, ressalta McLuhan, sente a necessidade de dividir as funções: cada pessoa passa a ter uma especialização assim como passa a viver, cada uma, no seu espaço privado. Já o homem tribal estranha, choca-se, porque a cidade murada rouba a dimensão universal da relação cósmica, divinal, limita seu espaço, além de recortar o mundo em “mundinhos”.  

Todos esses meios - roupa, casa, cidade, além do sapato e chapéu - moldam as estruturas perceptivas do ser humano. Só estudando a fundo cada meio para entender a expressão mcluana “o meio é a mensagem”. Nessa perspectiva, McLuhan cita o exemplo da chegada da luz. A luz é informação, é a mensagem. Com ela, “o mundo foi colocado numa moldura, a noite virou dia, toda hora é hora de trabalhar. A iluminação como extensão de nossas energias é um dos exemplos mais nítidos de como essas extensões alteram a nossa percepção (McLuhan, 1964, p. 149).

A nossa percepção das coisas é, portanto, fortemente influenciada pelo meio em que vivemos. Sem necessidade de ir muito longe, basta analisar a diferença da percepção da realidade entre mim e meu avô paterno. Ele, mesmo vivendo no século XXI, na era das tecnologias intuitivas e digitais, continua preso ao seu modo de vida da era da pré-internet e até da pré-eletrônica. Nunca quis relação com nenhum objeto eletrônico, muito menos, digital.

Se essa diferença mental e cultural é visível entre mim e vovô, veremos uma mudança perceptiva da realidade mais aguçada ainda entre mim e os nascidos na era digital. 

Enfim, quanto mais mergulhamos no pensamento da Escola Canadense, mais visualizamos, ao nosso redor, o célebre pensamento macluano “o meio é a mensagem”. 

Referência:
MCLUHAN Marshall, Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding media), São Paulo, Cultrix, 1964.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Das antigas estradas de Roma às estradas digitais

Compreendermos as estradas, as rotas marítimas e os transportes em geral como comunicação, ou meios de comunicação, é fundamental para entendermos a rede elétrica como meio de informação e, atualmente, as redes digitais, como ambientes de comunicação, interação e conhecimento.

Seguindo esse raciocínio, percebemos que, antes da eletricidade, até o século XIX, a comunicação dependia, exclusivamente, de estradas, pontes, rotas marítimas, rios e canais. No entanto, o telégrafo acabou a festa: chegou para descolar a mensagem do mensageiro. Com esse sistema de comunicação, não havia mais a necessidade de ele pegar o cavalo e passar o dia, na estrada, a fim de levar a mensagem ao destinatário. E, se o receptor estivesse do outro lado do mar, o mensageiro já não precisava mais passar dias navegando, com o intuito de conduzir a informação ao seu destino específico. Agora, estando um, em uma ponta, e o outro, na outra, via telégrafo, ambos podem receber e enviar mensagens.

Com a velocidade da informação, graças às estradas, a cidade perdeu o controle - houve um processo de desintegração, o mundo cresceu, surgiu o espaço centro-margem. Diante dessas mudanças, verificamos, que, os que se beneficiaram de meios rápidos, ocuparam o centro; os que não tinham interesses ou oportunidades de entrar no novo ambiente comunicacional das estradas, ficaram à margem desse processo. Na História, percebemos que, quanto maior a invenção de meios rápidos, maior o surgimento de centros: “A velocidade elétrica cria centros por toda parte”, afirma McLuhan.

As inovações tecnológicas, que chegam aumentando a força e a velocidade dos meios, provocam mudanças nas organizações. Antes do alfabeto e do papiro, a aldeia e a cidade-estado eram suficientes para atender as necessidades humanas. Com o poder do alfabeto, os novos espaços urbanos transformaram-se em centros de poder político, religioso e militar. Segundo McLuhan, foram o alfabeto, o papiro, o mensageiro e os couros que aceleraram o movimento da informação, por meio de estradas, via terra ou água, introduzindo, com isso, "a formação do Império Romano e o desmantelamento das cidades-estado do mundo grego” (McLuhan, 1964, p. 109). 

Dessa maneira, constatamos que, nas estradas da Antiga Roma, a informação era o produto transportado mais precioso: “Quando faltaram os suprimentos de papel, as estradas ficaram vazias, como ocorreu nos tempos modernos com o racionamento da gasolina” (McLuhan, 1964, p. 110).

Estudando o poder transformador das pessoas informadas, graças aos novos meios de comunicação (estradas, papiro, alfabeto) que provocaram a passagem das tribos e cidades-estado aos sistemas de poderes, dentre eles, o Império Romano, perceberemos melhor as atuais mudanças cognitivas e estruturais causadas pelo numero crescente de pessoas conectadas, consumindo e produzindo informação, através das mídias sociais digitais.

É fato que nem todos têm acesso aos meios informacionais. Historicamente, nunca houve uma homogeneidade tecnológica. Ou seja, um percentual significativo de pessoas não acompanha a velocidade dos meios; outras não se interessam com o “novo”, sem esquecer aqueles que chegam bem depois, provocando, muitas vezes, conflitos e rupturas entre si.

Nessa perspectiva, ressalta McLuhan: 
“Pode-se prever facilmente que qualquer novo meio de informação altera qualquer estrutura. Se o novo meio é acessível a todos os pontos da estrutura ao mesmo tempo, há a possibilidade de ela mudar sem romper-se. Onde há grande discrepância nas velocidades do movimento — como entre as viagens aéreas e terrestres ou entre o telefone e a máquina de escrever, sérios conflitos podem ocorrer na organização“ (McLuhan, 1964, p. 111).
Hoje, podemos visualizar esses conflitos e rupturas, resumidamente, em três diferentes grupos de pessoas: 
- entre aqueles nativos digitais, que vivem e assimilam, de forma natural, a cultura da sociedade-rede, ou seja, o digital é parte integrante de suas vidas; 

- entre as pessoas que vivem oscilando entre os dois ambientes: ao mesmo tempo em que continuam pensando o ambiente analógico e, nele, vivem, também experimentam os ambientes digitais e, nestes, vivem, parcialmente;

- E, por último, a ruptura e o conflito frequentes entre as pessoas, ainda a maioria da população, que vive fora do ambiente digital: por opção, por não ser alfabetizada, ou por ser excluída. Esse último grupo, quando depende do digital para fazer algo (caixa eletrônico, enviar uma mensagem de texto ao celular, programar a tevê, etc.), pede ajuda ao neto, ou ao amigo mais próximo. 

A respeito desses conflitos existentes na sociedade, McLuhan reforça que "a aceleração e a ruptura são os principais fatores do impacto dos meios sobre as formas sociais existentes” (McLuhan, 1964, p. 114). Consequentemente, as invenções sempre encontraram resistência por parte de todos os que se sentiam em paz, com o tradicional modo de vida. A princípio, o novo sempre disturba e altera o convencional ambiente cultural, conforme destaca o já mencionado teórico:
“Mas foi em meio a essas irritações que o homem produziu suas maiores invenções. Essas invenções eram extensões de si mesmo, frutos de muita concentração e trabalho. Os conflitos na cidade surgem do desequilíbrio entre as funções e graus de conhecimento entre as pessoas” (McLuhan, 1964, p. 117).
Enfim, o desenvolvimento da cidade coincidiu com a expansão da escrita fonética e, consequentemente, com a criação das estradas, via terra e via mar. Essas novas tecnologias definiram, de forma linear, o universo sonoro do mundo tribal. Foi a escrita alfabética que organizou, linearmente, as ruas das cidades. Foi a escrita que “capacitou Roma a impor alguma ordem visual nas áreas tribais… As estradas e ruas romanas eram padronizadas e se repetiam uniformemente em toda parte” (McLuhan, 1964, p. 118).

Referência:
MCLUHAN Marshall, Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding media), São Paulo, Cultrix, 1964.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A escrita: sem ela, a minha "carta" nunca teria chegado


Com a escrita, o mundo é a nossa casa: não há barreira física, ou temporal para compartilharmos o amor e o ódio, a paz e a guerra, a vida e a morte. Perto ou longe, ela nos a possibilidade e a liberdade de expressarmos o nosso sentimento por alguém. 

Nesse sentido, a palavra falada enjaula-me; a escrita liberta-me. A fala limita meu espaço relacional e emocional; já, através da escrita, mesmo distante da minha tribo, continuo me relacionando, trabalhando, estudando, sem romper os laços familiares e afetivos. 

Como as demais tecnologias, a palavra escrita não caiu do céu. Na verdade, é fruto de um processo de maturação que perdurou por diversas gerações - antes da invenção do alfabeto na Grécia, por volta do ano VIII a.C, os egípcios e os sumérios já haviam criado, respectivamente, a escrita hieróglifa e a cuneiforme, aproximadamente, 3.000 anos a.C.

Hipóteses defendem que a escrita chega para responder a uma latência da sociedade: a população crescia; as cidades, também. A agricultura e a economia pediam meios mais eficazes para fecharem negócios na relação de compra e venda dos serviços e produtos.

Já no âmbito das religiões, verificamos que, na  povoação da era dos primeiros sistemas de escrituras (hieróglifo, cuneiforme), elas eram politeístas, com grandes templos e complexos rituais sacrificais, presididos pelos hierarcas sacerdotais. 

Outrossim, na segunda era da escritura, com a chegada do alfabeto, constatamos o surgimento das religiões monoteístas, como o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo. Naquele período, cada religião professava suas doutrinas, adorava seus deuses, com nomes diferentes, mas que revelavam a mesma divindade.

Observando-se o crescimento populacional da época, verificamos que o objetivo da escrita consistiu não somente em responder às fortes demandas da religião e da agricultura, mas também do poder militar. Lendo a história, percebemos que, quanto maior for a complexidade demográfica, maior será a necessidade de tecnologias para minimizar os problemas da sociedade. Dessa premissa, muitos teóricos afirmam que o motor motivacional das grandes invenções tecnológicas tem suas raízes nas crises humanas provocadas pelos picos demográficos.

Assim, a massificação de uma nova mídia, na sociedade, segundo a Escola Canadense de Comunicação, altera o universo cultural,  modifica a rota convencional do homem. Sobre isso, Mcluhan afirma que a chegada do alfabeto "significou o poder, a autoridade e o controle das estruturas militares à distância. Juntamente com o papiro transportável, barato e leve, o alfabeto produziu a transferência do poder da classe sacerdotal para a classe militar ”(MCLUHAN, 1964, p. 102).

Culturalmente falando, a passagem da fala para a escrita, do mundo auditivo para o visual, ressalta McLuhan, sacrificou mundos de significado e percepção, produziu uma divisão “violenta e impiedosa, liberando o homem pré-letrado do transe tribal, da ressonância da palavra mágica e da teia do parentesco” para um novo ambiente humano, individualizado, com hábitos e atitudes isolados, livre do espaço geográfico, reconstruindo, assim, um homem, cidadão do mundo, com liberdade de eternizar seus feitos e toda a sua história.

Percebemos, também, que a chegada de uma nova mídia não elimina a anterior, mas complementa-a. Dessa forma, o surgimento da escrita não eliminou a palavra falada, assim como a advento dos algoritmos digitais não eliminou o papel impresso. Da mesma forma, o aparecimento do audiovisual (tevê) não eliminou o áudio (rádio).

O que observamos, com a expansão das mídias disruptivas, é um forte impacto na estrutura mental, cultural e relacional do ser humano. Ou seja, as revoluções na comunicação provocam revoluções cognitivas e culturais. Por exemplo: o ser humano pré-gutemberniano tem uma percepção da realidade, uma estrutura cognitiva bem diferente da do ser humano nativo digital.

Diante do exposto, se percebermos as mudanças culturais, que emergem nessas etapas de inovações tecnológicas disruptivas, teremos dado um passo gigantesco para sermos os agentes pioneiros da nova cultura digital emergente.

Referência:
MCLUHAN Marshall, Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding media), São Paulo, Cultrix, 1964.