Por que criar um laboratório participativo de comunicação digital eclesial?

O laboratório - formado por um grupo de estudo no Facebook, que se reune, presencialmente, duas vezes ao mês - é fruto das minhas angústias e dos meus conflitos racionais sobre o mundo digital em que vivo. Esses dilemas foram provocados, inicialmente, quando tive a oportunidade de focar parte dos meus estudos em Roma, na área de Comunicação Digital e persistem, ainda, alimentados pela boa parte do tempo que passo inserido no ambiente digital.

Diante dos efeitos das mídias sociais digitais provocados na minha vida como também na sociedade em geral, comecei a perceber que não bastaria fazer uma simples adaptação das mídias digitais ao nosso convencional mundo analógico ou, simplesmente, querer fazer ajustes incrementais para conviver de forma saudável na sociedade-rede.

E, como não poderia ser diferente, percebemos que a revolução digital trouxe consequências que desestabilizam e modificam, radicalmente, a convencional estrutura cognitiva, ou seja, afetam, diretamente, o nosso modo de pensar, a nossa cultura e, pouco a pouco, as nossas organizações. Constatamos, assim, que a chegada do “digital” é semelhante a outras tecnologias disruptivas que modificaram, consideravelmente, a cultura humana, como, por exemplo, a chegada da escrita, do alfabeto e a do papel impresso.

É evidente que a progressiva massificação dos meios digitais - quase metade da população mundial conectada à internet - está iniciando um processo de mudança cultural na sociedade, causando uma descentralização das ideias, quando cada pessoa se empodera, ao possuir, pela primeira vez, o seu próprio canal de comunicação, conectado em rede mundial, através das mídias digitais e, por meio delas, expande suas narrativas, seus interesses, interage, sem barreiras, com o mundo ao seu entorno.

Assim, as novas tecnologias digitais, que descentralizam e democratizam as ideias, constituem as bases para todas as grandes mudanças em andamento: o poder da mídia - todo mundo tendo acesso a tudo, como também todo mundo se comunica através dos canais (blog, Facebook, Twitter, Instagram, etc.) - é o que há de mais revolucionário na sociedade pós-internet.

Não é a primeira vez que a humanidade vive uma ruptura de mídia tão radical assim. Ter conhecimento das outras revoluções na comunicação deveria ser o primeiro passo para quem quer prognosticar o que significará a cultura digital para as próximas gerações.

Seguindo esse viés, podemos indagar: Por que aconteceram revoluções tecnológicas tão impactantes assim na História Humana? Quais são as causas? Qual é a finalidade? Para entendermos as respostas que virão depois, ao longo do nosso laboratório, deveríamos fazer outras perguntas: por que inventaram o analgésico? Por que inventaram o navio, o avião? Por que inventaram casa, camisa, cadeira?

Se analisarmos cuidadosamente, veremos que, por trás de todas as invenções tecnológicas, há um desejo humano de sobrevivência, de redução do sofrimento, de obter mais qualidade de vida, ou seja, as invenções surgem para responder a uma latência na sociedade.

No caso das tecnologias disruptivas (chegada da fala, da escrita, do alfabeto e da imprensa), um elemento fundante que marca cada era é o fator demográfico, isto é, elas surgem com a finalidade de responder, progressivamente, à complexidade causada com o aumento populacional.

Assim como ocorre nas demais mudanças tecnológicas, o choque cultural é natural, faz parte das primeiras gerações que vivem nas mediações das rupturas de mídia. Com o digital, vivemos o início de uma nova era na História Humana: o início de uma nova civilização, e a sociedade, como sempre, não está preparada  para fazer o upgrade, as mudanças necessárias provocadas pela rápida expansão da internet. Esse despreparo ocorre, uma vez que se trata de uma macrorruptura, conforme declara o filósofo da cultura digital, Carlos Nepomuceno: “Nossa taxa de abstração, de visão estratégica, e de longo prazo está bastante baixa”.

A internet é um tsunami – com as suas inovações, surpreendeu a todos e alterou quase tudo: o modo de estudar, informar, produzir, relacionar-se, controlar, organizar, enfim, ela conseguiu modificar o modo como vivemos e somos. 

Diante desse contexto pautado na rapidez, percebemos que o cérebro humano reage, fecha-se como mecanismo, para salvar seus códigos morais, seus princípios, seus dogmas, seu convencional mundo cultural e organizacional.

Então, mediante todas essas mudanças veiculadas na nossa sociedade, com o advento da cultura digital, situamos o nosso laboratório de comunicação digital, com foco na realidade eclesial, cujo intuito é ser um espaço de diálogo, de reflexão e de estudo sobre a influência dos algorítmicos (digital) na cultura e nas organizações, especialmente na Igreja. Objetiva, também, criar mecanismos teóricos e metodológicos que direcionem as organizações, entre elas, a Igreja, no progressivo e pedagógico caminho da conversão digital.

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