Tecnologias inventadas, culturas recriadas

Que mudança mental-cultural teria ocorrido em vovô se ele, em vez de ter vivido na zona rural, longe de energia, de rádio e tevê, tivesse tido a oportunidade de viver em um ambiente moderno, rodeado de inovações tecnológicas?

Que percepção da realidade teria vovô, se vivesse no ambiente das redes sociais digitais? E se ele tivesse nascido e crescido no centro de São Paulo, trabalhando como professor de Engenharia Eletrônica?

E, se vovô, nas horas livres, no lugar de ficar sentado na sua calçada da casa do sítio, contemplando o horizonte do verde, das serras, vendo pessoas que sobem e descem na estrada, estivesse interagindo com o complexo público do Twitter, , Whatsapp e/ou Facebook? 

Os “se” poderiam continuar, porém penso que os citados, acima, já são suficientes para percebermos o que significa os meios tecnológicos na construção da nossa identidade cultural.

Poderia ter recorrido a qualquer outra pessoa, que vive indiferente às inovações tecnológicas. Escolhi meu avô, pelo fato de ter vivido ao seu lado e perceber, na minha adolescência, sua aversão a tudo o que era “moderno” - escolheu viver longe de tudo, nunca quis sequer um relógio na sua casa, porque preferia seu antigo método de contar as horas pela rotação do sol e, à noite, pela posição das estrelas. 

Olhando para vovô, entendo por que ele nunca quis fazer aquilo que McLuhan chama de “cirurgia social”: “a inserção de uma nova tecnologia na mente grupal requer uma cirurgia social maciça, e é obtida inserindo o dispositivo de entorpecimento”(p. 83). Em outra passagem, afirma que essa “cirurgia social” é impactante, reconfigura a identidade cultural de um grupo, "não altera apenas os hábitos da vida, mas também as estruturas do pensamento e da valoração” (p. 83).

Assim como vovô, milhões de vovôs fazem a mesma coisa. É que o “novo” altera o modo como alguém está habituado a viver. Por isso, muitos veem o “novo” como ameaça, como algo que agride os conceitos convencionais e a estrutura mental-cultural dos valores humanos. Um simples exemplo: quem sempre comeu usando uma colher, estranhará muito quando passar a usar o garfo; precisará de treino e tempo para se adaptar, e muitos, nem com treino, conseguirão fazer a mudança: preferirão continuar comendo com a sua tradicional colher. 

Diante do aderir ou não ao “novo”, quem é que mais sofre? Quem adere à "cirurgia social", ou quem foge dela? Destaca McLuhan que, “ao se operar uma sociedade com uma nova tecnologia, a área que sofre a incisão não é a mais afetada. A área da incisão e do impacto fica entorpecida. O sistema inteiro é que muda” (p. 84).

Ou seja, ambos sofrem. Sofre quem adere, haja vista que precisa fazer a passagem do velho para o novo universo cultural criado pela nova tecnologia; porém, sofre mais ainda, ressalta McLuhan, quem ignora o “novo”, porquanto precisará concorrer com o mundo cultural que emerge, a partir das novas tecnologias. 

Diante de duas realidades culturais diferentes, aparecem, naturalmente, os conflitos cognitivos e sociais, como vemos nos dias atuais; de um lado, temos a geração da cultura digital, mais aberta, descentralizada, líquida, horizontal; e, do outro lado, a geração analógica, centralizada, hierárquica, sólida.

McLuhan narra, no seu livroUnderstanding Media” uma historinha para explicar o choque cultural provocado com a adesão às inovações tecnológicas. Visualizo meu avô no comportamento deste sábio chinês:
"Viajando pelas regiões ao norte do Rio Han, Tzu-Gung avistou um ancião trabalhando em seu horto. Havia cavado um canal de irrigação. Descia a um poço, colhia um balde de água e o despejava no canal. Apesar do enorme esforço, os resultados pareciam bem pobres.  Tzu-Gung disse: “Há um modo de irrigar uma centena de canais num dia, assim você fará muito com pouco esforço. Não é algo que lhe interesse?”  O horticultor levantou-se, olhou para ele e disse: “E que modo é esse?” Respondeu Tzu-Gung: “Você apanha uma alavanca de madeira, pesada numa ponta e leve na outra. Dessa forma, você pode puxar água tão depressa que parecerá um riacho". O sangue subiu ao rosto do velho, e ele disse: “Ouvi de meu mestre que, quem quer que use máquinas, acabará por fazer tudo como uma máquina. Quem trabalha como uma máquina, terá o coração como uma máquina, e quem leva o coração como uma máquina em seu peito, perderá sua simplicidade. Quem perde sua simplicidade, se tornará inseguro nas lutas de sua alma. Incerteza nas lutas da alma é alguma coisa que não está de acordo com o senso das coisas honestas. Não é que eu não saiba fazer essas coisas. É que eu tenho vergonha de usá-las” (p.83).
Diante da reação do sábio chinês, visualizo também a sabedoria de vovô - homem de pouco estudo, mas de leitura habitual no seu livro preferido, a Bíblia - penso que o receio de perder sua originalidade, sua simplicidade, e até a vergonha de não saber lidar com as novas tecnologias, como aconteceu com o sábio chinês, talvez tenham sido os principais motivos para que ele permanecesse arraigado ao  seu tradicional modelo de vida. Mesmo sendo bem mais prático esquentar o leite no fogão à gás, vovô sempre escolheu o modelo primitivo, usando o fogão à lenha
Assim sempre caminhou a humanidade: nunca houve, na história, uma adesão unânime, sem murmurar, às novas tecnologias. Complementa McLuhan: “na história da cultura humana, não há exemplo de um ajustamento consciente de vários fatores da vida pessoal e social às várias extensões” (p. 84).

Poderíamos dizer que seria uma espécie de ditadura, se todo o mundo aceitasse, silenciosamente, as novas tecnologias. Vovô tem sua total liberdade de querer, ou não, de preferir, ou não, certas tecnologias na sua vida. Com excessão, diríamos, de tecnologias disruptivas, como a chegada da fala, da escrita e, agora, do digital. Ignorá-las, coloca em risco a própria sobrevivência humana.

Por fim, penso que vovô deva ter lido McLuhan, quando este afirma que uma nova tecnologia ajuda, em uma parte, e atormenta na outra: “uma extensão tecnológica de nossos corpos, projetada para aliviar o estresse físico, pode produzir um estresse psíquico muito mais grave” (p. 87).

Referência:

MCLUHAN Marshall, Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding media), São Paulo, Cultrix, 1964.

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