O que afeta mais: o meio ou o conteúdo?

O livro de McLuhan (Os meios de comunicação como extensões do homem) está dividido em duas partes. Na primeira, o autor desenvolve alguns conceitos, como "O meio é a mensagem", "meios frios e quentes" dentre outros; na segunda parte, enumera vários meios que o ser humano usa como extensões do corpo físico e mental. 
Irei passear dentro dessas duas partes. Maior do que a pressa para comentar todo o livro, é o desejo de conhecer, minuciosamente, cada novidade, cada mídia explorada pelo autor. McLuhan interpretou, já na década de sessenta, um tempo em que nem sequer mouse existia, nem muito menos redes de computadores abertas ao público, o sentimento angustiante de qualquer pessoa que busca estudar o atual universo da comunicação digital.
Assim, o primeiro capítulo aborda o seu mais famoso e polêmico pensamento "o meio é a mensagem". Isso significa dizer que "as consequências sociais e pessoais de qualquer meio - ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos - constituem o resultado do novo padrão introduzido em nossas vidas por uma tecnologia ou extensão de nós mesmos” (p. 21).
Dessa forma, o meio tecnológico afeta, profundamente, a vida física e mental do homem. A chegada de uma nova mídia modifica o modo como ele vive e o transporta para um novo ambiente, com estruturas físicas e organizacionais diferentes. Com a mudança da Era Industrial para a Eletrônica, o homem fez a passagem do mundo mecânico, linear, fragmentado para o mundo eletrônico, envolvente, participativo, descentralizado. O novo reprocessa o velho ambiente, desestrutura-o. Por isso, o “novo”, geralmente, é interpretado pelo senso comum como corruptor, degradante, por mexer no modo convencional de fazer e ser. 
Nesse processo, McLuhan ressalta que "à medida que tecnologias proliferam e criam séries inteiras de ambientes novos, os homens começam a considerar as artes como “antiambientes” ou “contra-ambientes” que nos fornecem os meios de perceber o próprio ambiente" (p. 12). A arte, portanto, faz uma leitura profética das inovações tecnológicas, busca antenar o homem com as possíveis mudanças no ambiente social, prepara o terreno.
Dessa forma, o mundo da eletricidade retira o homem do trabalho isolado, sequencial e mecanizado e o conduz à teia social, a um aglomerado de relações diretas com o ambiente e com os organismos que o integram. Com a teia social elétrica e digital, ninguém foge da participação -  toda ação humana causa uma reação instantânea no ambiente social, visto que tudo está interligado. E, com a eletricidade, não seria diferente -  os efeitos são imediatos e coletivos. 
No entanto, a nossa cabeça influenciada pela era industrial nem sempre consegue dissolver a ideia de que a tecnologia é a mensagem. Fomos orientados a pensar, ao longo da história, que não é a tecnologia que altera nossas estruturas físicas e mentais, mas o que se faz com a mesma. Ou seja, o que determina o meio é o que fazemos com ele, é o conteúdo que carregamos nele. Não importa o que tal máquina constrói ou faz. Independente de ela disponibilizar energia para mover um trem ou para produzir uma bomba atômica, a chegada da máquina molda, altera, radicalmente, a estrutura da vida humana.
A comparação que McLuhan usa com mais frequência é entre a era industrial mecânica e a era da eletrônica. Esta é descentralizada, integral, envolve com profundidade as relações humanas. Já aquela era centralizadora, fragmentária e superficial na estrutura das relações humanas.
Outros exemplos que o autor usa para a afirmação de que "o meio é a mensagem" são a estrada de ferro, a luz elétrica e o avião. Destaca McLuhan: a estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade, "mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas anteriores, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos" (p.22). Isso acontece sem nenhuma relação com o que é transportado sobre os trilhos de ferro.
Sobre a energia elétrica, "pouca diferença faz que seja usada para uma intervenção cirúrgica no cérebro, ou para uma partida noturna de beisebol" (p.23). Da mesma forma, o avião, independente do que se transporta nele, acelerou o ritmo de transporte, quebrou barreiras geográficas, alterando, fortemente, as estruturas relacionais humanas.
Ademais, McLuhan chama a atenção para a falha humana, quando não vê a luz elétrica como um meio de comunicação, pelo simples fato de ela não possuir “conteúdo”: "a mensagem da luz elétrica é como a mensagem da energia elétrica na indústria, totalmente radical, difusa e descentralizada. Embora desligadas de seus usos, tanto a luz como a energia elétrica eliminam os fatores de tempo e espaço da associação humana, exatamente como o fazem o rádio, o telégrafo, o telefone e a televisão, criando a participação em profundidade" (p. 23).
Esses exemplos têm o intuito de clarear a inquietante tese mcluana de que "o meio é a mensagem". A pluralidade de modos (conteúdos) usados nos meios tecnológicos não afeta tanto quanto o impacto do "meio" na estruturação das organizações e relações humanas.
Seguindo esse viés, o referido autor destaca outra comparação lúcida: "O conteúdo de um meio é como a "bola" de carne que o assaltante leva consigo para distrair o cão de guarda da mente. O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o seu "conteúdo" é um outro meio" (p.33).
Embora sejam pensamentos gestados antes da comunicação digital, McLuhan preenche um dos maiores equívocos que os atuais teóricos da cultura digital estão cometendo: o de gastar toda a sua energia e todo o seu tempo estudando os efeitos causados pelas mensagens publicadas na rede,deixando na periferia da discussão o que significa, para a sociedade, o novo ambiente criado pela Internet. Dito de outro modo: os críticos contemporâneos não têm privilegiado o que, de fato, muda na sociedade, com a passagem da comunicação de massa, analógica, para a autocomunicação digital.
Continuamos interpretando as coisas de modo fragmentado, isolado, pensando não no que a tecnologia ou meio pode causar na estrutura das relações humanas, mas apenas focado no conteúdo transportado por tal meio. As tecnologias não servem apenas para uma única finalidade: a tevê não serve apenas para assistir aos programas; o carro não serve somente para transportar gente e coisas; a importância da Internet não consiste unicamente em trocar informações, encurtar caminhos.
Tudo muda, quando alargamos nossa percepção dos meios e os vemos na condição de extensões do nosso corpo e como grandes responsáveis pelas mudanças na e da sociedade.

Referência:
MCLUHAN Marshall, Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding media), São Paulo, Cultrix, 1964.

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