A revolução da escrita na Grécia e a revolução digital hoje

Se queremos entender as mudanças culturais na sociedade com a chegada de novas tecnologias, precisamos, antes de tudo, descolar o nariz da parede e fazer um passeio demorado em eras bem distantes. 
Quanto mais viajarmos na história das tecnologias disruptivas, melhor perceberemos e viveremos nos novos ambientes culturais criados com a chegada de novas mídias na sociedade. 
Há uma corrente de pensadores  no campo da comunicação, conhecida como Escola de Toronto, formada por filósofos, filólogos, sociólogos, antropólogos, entre outros, que estuda o impacto causado na cultura com a chegada de uma nova mídia.
Eric Havelock, um britânico que passou quase toda a sua vida no Canadá e Estados Unidos, é um dos pioneiros da Escola de Toronto (muitos preferem chamá-la de escola canadense de comunicação). A tese principal defendida por Havelock afirmava que: a chegada de uma nova mídia (da revolução da escrita com o alfabeto grego, por exemplo) provoca uma profunda mudança cultural, causando uma transformação nos padrões organizacionais. 
Com isso ele defende que a forma ou o meio pelo qual nos comunicamos muda radicalmente a forma da gente pensar, muda a mente humana. Algo semelhante ao que McLuhan defendia ao dizer que o meio influencia a mensagem, ou mais forte ainda, "o meio é a mensagem".
Antes da invenção do alfabeto grego no século VIII a.C, havia uma escrita silabar, sem fonemas, muito difícil de ser convencionada, apenas um grupinho restrito a dominava, grupinho esse formado por escribas e amigos do rei.
A olho nu não percebemos nada de extraordinário, todavia, se colocarmos os óculos da história veremos que a chegada do alfabeto grego - sinais sem ruídos, redução do número de letras para 23, incluindo nele as vogais e com elas a notação de fonemas - deu assas para que um percentual considerável de helenistas pudesse ler e assim oxigenar a sociedade com novas ideias e percepções da realidade. O acesso à escrita e à leitura deixaram de ser restritas à elite da corte e passou a ser popular, democratizada.
Um exemplo: por que a filosofia surgiu na Grécia e por que exatamente no período em que o alfabeto se expandia por toda a região helênica? A causa primeira foi a introdução do alfabeto grego, diz Havelock. A escrita chega para liberar espaço do HD humano; a memória, que, antes era usada para guardar poemas homéricos, regras, doutrinas e leis que regiam a pólis, agora passa a ter espaço livre porque parte do conteúdo pode ser armazenado no papel escrito. O cérebro humano passa a pensar mais e a compartilhar as ideias com outros cérebros  por meio da escrita. Foi nesse ambiente, oxigenado por cabeças livres e pensantes, que nasceu a filosofia, tornando-se assim o berço da civilização ocidental.
Havelock no seu livro "A revolução da escrita na Grécia e suas consequências culturais" descreve minuciosamente as vantagens do alfabeto grego em relação aos precedentes, como o cuneiforme, por exemplo. Com a escrita grega, o mundo da memorização e da poesia dão espaços para a formação de uma nova mentalidade, lógica, linear e analítica, fornecendo "a base conceitual das ciências e filosofias modernas", algo quase impossível à era da escrita cuneiforme, ideogramática e outras. 
No texto seguinte, farei a comparação dos efeitos da Internet na cultura atual com os efeitos do alfabeto grego na cultura ocidental. 

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