O retiro do papa em 7 chaves

Sob a via pedagógica do carmelita Bruno Secondin, papa Francisco e seus colaboradores escolheram o profeta Elias - um homem do século IX antes de Cristo - como referência inspiradora da vocação profética na Igreja do século XXI.  

Foi usado o método da Lectio Divina pra rezar e encontro de Elias com a pobre viúva do capítulo 17 do primeiro livros dos Reis. O método da leitura orante é composto de quatro partes: leitura do texto; meditação (comparando o texto com outros textos afins e comentários); oração e contemplação (contemplar a si mesmo, as pessoas, o mundo com o olhar de Deus).

Quem já fez retiro sabe que não dá pra descrever, de fora, a experiência vivida nele. Podemos imaginar daqui a profundidade das reflexões, a atmosfera fraterna, o mergulho que o papa e seus companheiros fizeram no mistério da vida, do divino e da missão.

Daquilo que foi publicado pela imprensa vaticana, extraio abaixo 7 chaves provocadas pelo orientador do retiro.

1.  “Vai, retoma teu caminho”

Não desista. Pare, retire-se, reconstrua sua vocação, sua vida. Deus no diálogo com Elias, que se encontra desmotivado, triste, sem esperança, diz pra ele: "vai, retoma teu caminho". 

Deus pediu-lhe para fazer um retiro, “tomar distância, ir na contracorrente, viver em solidão”, afim de “purificar-se, reencontrar as próprias raízes e a razão da sua fidelidade”, da sua vocação.

Elias é um profeta da estrada, não se detém em um lugar fixo; é um homem em contínuo movimento, um ótimo companheiro de viagem, que passa por diversas experiências até reencontrar o encantamento da sua vocação.

“Também nós somos chamados a reencontrar frescor e colocar-nos a caminho. E se estamos como Elias, desiludidos, cansados, acreditando ser melhor que os outros, deixemo-nos surpreender por Deus e iniciemos um novo caminho”.
O assessor aquece ainda mais sugerindo outros caminhos. “Retome o caminho nas periferias, celebrando nas barracas, almoçando com quem tem pouco para comer. Ali, entenderá onde Deus o espera”.

2.  “Sair da própria aldeia”

Sair do mundanismo vicioso, pessimista, legalista e passar a frequentar a “escola da misericórdia” como o profeta Elias. Sair da aldeia do comodismo, das vaidades, do acúmulo e passar a viver uma "vida de periferia”, despojada, simples e feliz.

3. Os pobres nos convertem 

O próprio encontro do profeta com a viúva de Sarepta nos recorda que também os “pobres nos evangelizam”.
Elias é convertido após ser hospedado por uma pobre viúva.  Ele se converte quando se depara com o sofrimento da viúva, sem nada pra comer e, além disso, com um filho gravemente doente. «Deus procura endireitar Elias para que se torne meigo».

Cenas assim nos provocam questionamentos sobre a nossa história pessoal. Pergunta o assessor do retiro: «Somos capazes de encontrar os pobres para chegar à verdade?; sabemos reconhecer e abraçar quem tem «”um menino morto” no seu coração: violências, traumas infantis, divisões, horrores...»?

4. Os pobres no coração do Evangelho, sempre!

É traição qualquer interpretação bíblica que expulsa os pobres do coração do Evangelho. Ontem, hoje e sempre, «o compromisso pela justiça faz parte integrante do nosso seguimento de Cristo, porque os pobres são os privilegiados do Evangelho: não é uma mania populista».

Ressaltou padre Secondin: «quanto terão que bradar os pobres e os oprimidos?» A chamada que vem das Escrituras é forte: «devemos estar da parte de todos os Nabot da terra, defender os direitos, acolher as vítimas, despertar as consciências, promover estruturas, porque a terra é de Deus, é um dom para a vida de todos e não para os caprichos de alguns».

5. A lei ou a misericórdia?

Diante da dor infiltrada nas periferias existenciais do povo, «mandamos à frente o canonista», um detector moralista ou, acolhemos  o povo sem reservas, abrindo os braços da ternura e da esperança? Aqui lembra o papa Francisco quando compara a Igreja como um hospital de guerra, acolhe gente ferida de todo jeito, sem murmurar, questionar.

6. Começar devagarinho, passo-a-passo

A Bíblia, disse o pregador, propõe uma «pedagogia dos pequenos gestos». É angustiante e, às vezes, sem resultado, querer mudar da noite pro dia, sem levar em conta o tempo e passos necessários para tal. 

O mais importante é "sair da aldeia", começar,  «começar por nós mesmos», converter o próprio estilo de vida, rever o consumismo (quanto desperdiço de alimentos, quanta desigualdade social); ser transparente nas ações, fazer o próprio dever com honestidade, não exercer a autoridade como poder e fonte de privilégios, enfim,  «interromper a cumplicidade, as coberturas, os abusos».

7. Renascer o profetismo do "Magnificat"

Diante das injustiças sociais e face a um sistema econômico sem escrúpulo, que com um simples «clique», faz morrer as pessoas, devemos recuperar a força do canto do Magnificat e «ter a coragem de denunciar». Porque «Deus não suporta os prepotentes». 

O assessor conclui sua meditação com uma pergunta inquietante e profética: «Sabemos familiarizar publicamente com os humilhados, com os descartados da violência, ou temos medo de ousar pelo Evangelho?




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