O chapéu de papai e o meu celular: o que tem a ver?

Próximo mês, papai está indo de avião para a formatura de um dos seus filhos em São Paulo e aí lembrei do seu chapéu. "Pai, o senhor vai usar o chapéu dentro do avião"? Rapidinho, num tom de defesa, responde: "por que não? E non cabe um chapéu dentro do avião?" 

Ingenuamente perguntei porque via o chapéu de papai com uma finalidade: usar para se proteger do sol. Para papai, todavia, proteger-se do sol é secundário. O chapéu, na verdade, tornou-se mais do que uma proteção solar, é algo que o identifica, é uma extensão do seu corpo, como afirmava Mcluhan, o filósofo da comunicação do século XX.

Diferente da formiga, do gato, do leão e de qualquer outro animal, o homem para sobreviver depende de tecnologias. A técnica não faz parte da genética humana, mas o acompanha desde a sua gestação. Para o animal, o instinto é suficiente.  Invés, o homem, por sofrer de carência instintiva de um lado e ser dotado de razão por outro, recorre conscientemente às tecnologias, que, há princípio, parecem serem estranhas, mas, na medida em que elas vão se inserindo na natureza humana, passam a ser extensão do corpo humano. 
Diz Galimberti, um filósofo italiano, inspirado no existencialista Heidegger, que a técnica nasce como "remédio para a insuficiência biológica". Para o senso comum, é estranho afirmar que o chapéu de papai é uma tecnologia. A confusão talvez esteja no que se entende por tecnologia. Lendo a história percebemos que, quanto mais uma tecnologia se torna popular e presente na vida da gente, mais ela deixa de ser vista como uma tecnologia. Por exemplo, quando inventaram a cela do cavalo, o homem ficou abestalhado por muito tempo com tal invenção, considerada pra época uma das mais revolucionárias tecnologias. Hoje, todo mundo vê a cela como algo normal, ou seja, deixou de ser uma tecnologia de ponta pra ser um mero assento no lombo de um animal para o homem cavalgar. 
Alargando nossa compreensão tecnológica, a chupeta do bebê também é uma tecnologia; a frauda (antigamente o cueiro) do bebê é uma tecnologia. Como também são tecnologias o berço do bebê,  a mamadeira, o sapatinho, o fogão, a geladeira, as telhas, parede... 
E se a gente continua olhando ao nosso redor e até dentro de nós, veremos que somos seres tecnológicos. A platina colocada no osso da perna é uma tecnologia interna; aquele minúsculo objeto colocado dentro da veia pra desobstruí-la também é uma tecnologia. Os óculos, a cueca, as sandálias, a camisa, o chapéu, o lençol de dormir, a casa, a cidade, o carro, a bicicleta, o muro, a estrada, a vassoura, o papel higiênico, a cadeira, a mesa, o ventilador e quase tudo à nossa frente são tecnologias necessárias para a sobrevivência humana.
Faço essa larga introdução para não chocar alguns leitores quando eu afirmo que o chapéu de papai é uma tecnologia de grande relevância para ele quanto o celular é para mim.
O chapéu tornou-se para papai uma extensão do seu corpo, precisamente, uma extensão da sua cabeça. Não é apenas um instrumento, um mero objeto; o chapéu tornou-se um pedaço do corpo de papai. Ele tanto usa o chapéu para se proteger do sol, como o usa como continuidade do seu sistema nervoso, emocional, cultural, afetivo. Sair de casa sem o chapéu, seja de dia ou de noite, é quase como sentir-se despido parcialmente da sua identidade porque o chapéu para ele não é mais uma simples tecnologia, um objeto instrumentalizado. 
Comparando com a calça e a camisa - tecnologias inventadas para proteger o corpo humano dos fenômenos naturais e hoje, usadas por vaidades e por questões culturais e doutrinais - o  chapéu tornou-se para papai tão importante quanto a calça e a camisa. Para papai, sair de casa sem chapéu é quase semelhante como sair de casa sem camisa.
E o que tem a ver tudo isso com o meu celular, conectado em rede? Por que sou tão apegado ao meu celular quanto papai ao seu chapéu? Porque dentro dele está parte da minha vida, estão as pessoas que eu amo, converso com elas onde e quando quiser; porque dentro dele está a agenda que organiza o meu tempo e prioridades; estão meus livros preferidos, os livros de oração, todas as minhas anotações; por meio dele acesso todas as mídias sociais (Facebook, Twitter, WhatApp, Instagram); porque dependo do celular para escrever parte deste texto. 
Porque, com o celular conectado na internet, fico sabendo do filme e em qual cinema a minha melhor amiga da Itália assistiu ontem à noite. Pelo celular, diariamente, acompanho a missa e a agenda do Papa Francisco. Com ele, mesmo estando no sítio com meus pais ou na China, acompanho pelas câmaras, em tempo real, toda a movimentação da Igreja de Fátima em Mossoró. Pelo celular, pago minhas contas, compro o livro ou a camisa em promoção de uma loja em Curitiba ou em Milão. 
Assim como o chapéu de papai tornou-se uma tecnologia que ultrapassa a dimensão da utilidade (proteger-se do sol ou do frio), o celular para mim também vai além do seu lado usual, prático. Sair de casa sem o celular é como ir para escola sem livro, pegar um avião sem saber seu destino, andar no meio da floresta amazônica sem mapa e por aí vai. 
O celular conectado em rede é uma extensão  dos meus sentidos, do meu ouvido, meus olhos, minha boca, minha emoção, afetividade, aguça minhas sensibilidades. O celular expande minha dimensão relacional, intelectual, espiritual, afetiva. Por isso, tem tudo a ver e muito mais com o chapéu de papai.

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