A caridade na Igreja: que rosto ela deveria ter?


O que tem haver o tema da festa de Santa Luzia, especificamente, o tema de hoje – identidade caritativa da Igreja – com o Dia Internacional dos Direitos Humanos, que celebramos hoje, 10 de dezembro?
O que tem haver o tema da festa com o Dia Internacional contra a corrupção celebrada ontem, 9 dezembro?

Inicialmente, qual é o perfil caritativo da Igreja de Mossoró? Vocês estão testemunhando esses dias nas recordações feitas dentro das novenas. Temos na cidade dezenas de atividades caritativas: Lar da criança pobre, Projeto Esperança; CPT, Pastoral da Criança, Seapac, Fazenda da Esperança e muitas outras. Todas elas contribuem para minimizar o sofrimento e as necessidades urgentes de muita gente. Todavia, Bento XVI na encíclica sobre a caridade exorta para não reduzirmos a atividade caritativa da Igreja a mero assistencialismo.

O papa emérito destaca no seu documento a importância da Cáritas, que tinha como missão principal, até pouco tempo, assistir aos pobres em estado de vulnerabilidade.

Hoje, muito mais do que dar assistência aos pobres, a missão da Cáritas, bem como, a missão das outras atividades sociais da Igreja têm a finalidade, sobretudo, de  despertar e ajudar aos pobres a ter uma nova consciência política, suscitando neles o gosto e a responsabilidade de se tornarem sujeitos da construção da sociedade que eles sonham.

O papa Paulo VI já alertava na década de sessenta a importância da Igreja nas decisões políticas da sociedade. O papa reconhecia a importância das atividades caritativas da Igreja, porém, nenhuma delas deveria substituir a principal estrutura da caridade, que é a política. Dizia o papa Paulo VI: "a política é a forma mais sublime de praticar a caridade”.

Quando o papa ver na política a forma mais sublime da caridade, ele, possivelmente, suspeitava que as atividades caritativas da Igreja poderiam correr o risco de virar uma faca de dois gomes: de um lado, elas reduzem o sofrimento de muita gente, e do outro lado, poderiam ser instrumentalizadas pelos políticos. Como? Quando eles usam essas iniciativas caritativas das Igrejas e organizações populares como subterfúgios de suas responsabilidades ou como justificativas para não investir em políticas públicas efetivas.

Em Mossoró, quase todas as estruturas caritativas  são meramente assistencialistas. Isso faz bem para quem se torna dependente delas, mas também, pode ser uma anestesia alienante para um sistema político míope, que necessita dessa prática assistencialista para se perpetuar no poder.

Bem diferente é uma estrutura caritativa emancipatória e libertadora, onde oferece todas as oportunidades necessárias para o pobre se reeducar e se engajar politicamente em seu bairro, em sua cidade.  Isso acontece quando se educa a consciência política e cristã do sujeito. 

Esse sujeito consciente dos seus direitos renasce pela educação. Dizia nosso herói Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

Para aquecer nossa conversa
- Se a política, como diz Paulo VI,  é a atividade mais sublime para exercer a caridade, como se encontra atualmente o quadro de saúde da política do nosso País, do nosso Estado e da nossa querida Mossoró?
- A estrutura política atual está assumindo a sua vocação de cuidar e de garantir nosso bem-estar, de garantir nossa qualidade de vida?
- Por que em junho deste ano, milhões de jovens ocuparam as ruas e praças do país, gritando pro mundo ouvir, sua indignação contra o nossos representantes e contra a nossa falida democracia representativa?
- Quem são os sujeitos responsáveis pela desigualdade social, pela pobreza, violência, enfim, pela ausência de políticas públicas efetivas?
- Há motivos para nos indignarmos com a realidade social e política em que vivemos? Vejamos apenas alguns dados pra gente fundamentar um pouco  as questões acima.

No mundo
Segundo a ONU, no mundo, 842 milhões pessoas ainda passam fome, uma em cada oito pessoas. 
Por que esse povo passa fome no mundo? Falta de comida? Não. Concentração de comida, fruto do nosso egoísmo. Os 10% mais ricos do planeta controlam 86% da riqueza do mundo.

No nosso país?
O Brasil é a sexta economia mais rica do mundo, porém, 57 milhões de pessoas ainda vivem em estado de pobreza, ou seja, sobrevivem com meio salário mínimo.
É altíssimo a concentração de renda no Brasil. Somente pra se ter uma ideia, as 5 mil famílias mais ricas apropriam-se de 45% de toda a riqueza nacional.

Preocupado com essa desigualdade social que mata milhões de inocentes de fome, o papa Francisco lançou oficialmente, hoje, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Campanha Mundial contra a Fome e a Pobreza, com o tema: uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas. Essa campanha que se estende até 2015 é uma mobilização mundial da Caritas Internacional em favor da vida, dos direitos humanos e da justiça social.

Disse o papa Francisco hoje pela manhã no lançamento da campanha: “Estamos de fronte ao grande escândalo mundial, onde cerca de um bilhão de pessoas sofrem com a fome no mundo. Não podemos virar a cara pro outro lado e fingir que isso não existe”

E a nossa querida Mossoró, como está?
Segundo dados do IBGE, em Mossoró, 109 mil pessoas vivem com menos de meio salário por mês, ou seja, quase metade da população mossoroense vive na pobreza. O que isso significa? Péssima qualidade de vida, ausência de políticas públicas, jovens mais vulneráveis aos vícios; aumento descontrolado da violência. Somente neste ano, 169 jovens foram assassinados na nossa cidade, quase todos envolvidos no mundo do narcotráfico e da criminalidade.

Ontem, pela manhã, Santa Luzia visitou as crianças da Favela do Fio e, na ocasião, perguntei às crianças o que elas gostariam de pedir a Santa Luzia. Pra ajudá-las, eu perguntava: aqui tem posto de sáude? Nãooo, gritavam as crianças; tem posto policial? Nãooo; Tem transporte público? Não. Ou seja, total abandono.

Ficou evidente que as crianças queriam pedir a Santa Luzia  que tocassem o coração dos políticos e passassem a olhar com piedade e  caridade para a sua comunidade. Que os políticos visitassem a favela não somente em período de campanha pra pedir e comprar votos, mas que olhassem com prioridade para os mais pobres que sobrevivem da Graça de Deus, nas inúmeras favelas que circulam Mossoró.

A população em geral, especialmente, as 109 mil pessoas que vivem com menos de meio salário em nossa cidade, pedem apenas respeito e dignidade.

Hoje, dia Internacional dos Direitos humanos, comemoramos muitas vitórias, mas, lamentavelmente, testemunhamos ainda uma política violadora dos direitos humanos básicos. Dentro da política, a praga que mais corrói e abusa dos direitos humanos é a corrupção.

Ontem, rezamos contra ela
Celebramos o Dia Internacional contra a Corrupção. 
Sabemos que a corrupção afeta diretamente a qualidade de vida do povo, sobretudo, dos mais pobres. A corrupção desvia o dinheiro que deveria ser aplicado no bem-estar das crianças da favela do Fio, ou seja, investir em saúde, em infraestrutura, na segurança, na educação, em habitação, etc.

Diz o papa Francisco que “toda corrupção social não é mais que a consequência de um coração corrupto. Não haveria corrupção social sem corações corruptos. Como ouvimos São Paulo dizer na leitura: é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. 

Diz o papa que “o corrupto não percebe sua corrupção. Acontece como o nosso mau hálito: dificilmente aquele que tem mau hálito o percebe. Quem sente o mau hálito é aquele que está próximo e tem que lhe dizer”.

E aí, nós nos perguntamos: denunciamos a corrupção ou somos coniventes e cordiais com os corruptos?
O que estou fazendo para diminuir a corrupção na minha cidade?
Diante de uma política enferma, boa parte corrompida, podre, como nós cristãos podemos agir para restituir a dignidade e a credibilidade da política?

E aqui pego em embalo de Nelson Mandela que dizia: “Lutar contra a pobreza não é um assunto de caridade, mas de justiça”. Eu diria, diante de um sistema político  enfermo: lutar contra a corrupção, não é um assunto de caridade, mas de justiça.

Concluo com a última parte da oração da Campanha Mundial de combate a fome e a pobreza, lançada hoje pelo papa Francisco:

Senhor Nosso Deus, na tua sabedoria, ilumina os governantes e todos os cidadãos e cidadãs a encontrar soluções justas e solidárias para acabar com a fome no mundo e garantir o direito de cada ser humano à alimentação. Por isso te pedimos, Senhor nosso Deus, que ao nos apresentarmos diante de ti, possamos proclamar como parte de “uma Família Humana”, com “pão e justiça para todas as pessoas”. 
Amém.

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