Os sete mitos da Internet desmitificados pelo sociólogo Manuel Castells

É raro ler ou ouvir autores que falam com fundamentação histórica e científica do fenômeno da Internet. Gostaria de compartilhar algumas pílulas altamente desintoxicantes vindas de um artigo de Manuel Castells, considerado um dos sociológicos mais renomados do mundo, publicado em "La Vanguardia"

Por aí há uma maré de textos apedrejando a internet porque quem os escrevem são, geralmente, autores que não estão infiltrados dentro da cultura digital, vivem exclusivamente da comunicação unidirecional e autoritária. Para as empresas editoriais e para os jornalistas que eram donos da informação, a internet é uma mal educada, que não se curva e nem pede a benção àqueles que eram considerados, até então, sacerdotes da informação.

Castells nos tranquiliza afirmando que o medo causado com a chegada de uma nova tecnologia faz parte da história humana, porque quando ela chega, modifica a nossa existência: modifica a forma de nos comunicar, trabalhar, nos relacionar, amar ou protestar. “Porque a internet é como a eletricidade: infraestrutura de nossas vidas”, diz Castells.

Podemos dizer, desse modo, que a internet não é uma realidade neutra porque ela chega causando um rebuliço tremendo na vida de quem vive dentro dela.

Castells, ancorado nos principais centros de pesquisas científicas do mundo sobre a internet, busca desmitificar afirmações infundadas sobre a rede.

Primeiro mito: Internet isola, aliena e deprime. É o inverso, diz ele. Utilizando a internet aumenta a sociabilidade, dentro e fora da rede, porque os dois tipos de sociabilidade se interlaçam. As redes sociais são usadas para manter as ligações originadas fora da rede, criando novas oportunidades de amizade e relacionamento. E quando há pessoas que sofrem de depressão, a rede ajuda a encontrar companhia. 

Segundo mito: a exclusão digital. Nos países desenvolvidos, como a Espanha, mais de 85% da população com menos de 60 anos de idade está conectada. Segundo os dados, o principal fator de exclusão é a idade, alerta Castells. No mundo há 2,8 bilhões de usuários de internet e 6,7 bilhões de usuários de telefones móveis. A desigualdade no mundo da rede é menor que a desigualdade no acesso à renda e patrimônio porque as pessoas priorizam, na sua pirâmide de valores, o acesso às tecnologias de comunicação e informação.  

Terceiro mito: a internet deseduca os filhos porque não prestam atenção em sala de aula e são distraídos em casa. O que revelam os estudos sobre o abandono escolar é que a escola não entrou na pedagogia da era digital e continua aferrada nos livros, nos negócios editoriais e propagandas das ideologias oficiais. Resultado: os adolescentes, que vivem plenamente na criatividade da cultura digital, ficam extremamente entediados na aula e, quando encontram brechas, correm pra viver fora dos muros da escola porque lá a vida é bem mais interessante.

Quarto mito: a educação universitária virtual degrada a qualidade por falta de contato com o professor. Na verdade, o contato com o professor é muito mais limitado em universidades tradicionais do que naquelas baseadas em tutoriais online.

Quinto mito: internet é o Big Brother, onde tudo se sabe e se monitora. É certo que a privacidade na rede é difícil, mas sabemos que ela é um ambiente extremamente importante de autoorganização e mobilização, de potencializar os movimentos sociais, as resistências aos tiranos. A internet empodera e autonomiza: os vigilantes também são vigiados. 

Sexto mito: a informação na internet não é confiável. Muita não é, outras sim, como nos meios de comunicação, porém a diferença é que na internet se pode comentar e corrigir mediante a participação ativa de muitos produtores de informação.

Sétimo mito: internet é causadora de violência, terrorismo, pornografia, sexismo e todo tipo de aberrações. Não podemos esquecer que esses males são destaques na sociedade e, portanto, também ecoarão na internet. “A internet é liberdade e o uso da liberdade é reflexo de quem somos, de modo que, somos nós que temos que mudar, em vez de esconder a verdade”, diz Castells.

Por ser fruto de muita pesquisa, feitas em centros acadêmicos de renome internacional, esses sete mitos nos purificam e nos aliviam de tanta falácia e comentários ocos sobre a internet.

E pra concluir, Castells nos esclarece porque e de onde vem essa onda de preconceito e medo da nova cultura que emerge com as redes sociais digitais.

“A imagem distorcida da internet provém do alarmismo dos tradicionais meios de comunicação, aterrorizados com a sobrevivência dos seus meios unidirecionais, controlados pelo dinheiro e o poder, a pesar de jornalista profissional. Da fobia de intelectuais que perderam o monopólio da palavra. Do medo de governos ao ver uma cidadania informada, capaz de auto-comunicar-se e auto-organizar-se. E do nosso espanto de revelarmos quem somos, escondendo-nos por trás de hipocrisia social. Temer a internet é temer a liberdade”

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