Morrer em Santa Maria e morrer na seca. Qual a diferença?

Por que é preciso morrer muita gente para poder comover o mundo e, sobretudo, comover os principais responsáveis causadores da morte? 


É difícil apagar da nossa memória o trágico destino dos jovens vítimas do incêndio na boate de Santa Maria. Todos nós ainda estamos chocados. O mundo todo acompanhou a morte de dezenas de sonhos e projetos, ceifados violentamente pela fumaça tóxica. 

Ao ouvir pela mídia a dor e o desabafo de alguns pais e familiares, ficamos profundamente comovidos, mas, também, profundamente indignados e impotentes, por não poder nada fazer. Escolhemos o silêncio, o respeito e a solidariedade com cada um. 

Do outro lado do Brasil, andando pelo nosso sertão, vemos na beira da estrada um verdadeiro cemitério de animais. Entrando nas casas do povo da roça, vemos o semblante de desilusão e o forte sentimento de tristeza dos agricultores. Cada animal morto é uma espada que traspassa o coração do pequeno agricultor, que cuida com muito esforço e sacrifício do seu rebanho, até o último momento. 

O agricultor engole o choro, tem vergonha de revelar com lágrimas a profunda revolta, tristeza e indignação. A agricultora, dona de casa, invés, movida pelo sentimento maternal, fala dos seus animais mortos, nem tanto com palavras, mas com silêncio e lágrimas. 

Em período de seca, as vítimas não são somente os animais. Cresce o número de mortes de crianças e idosos. Sem água potável, sem alimento suficiente, sem a verdura e o leite da criação, as pessoas ficam mais expostas às doenças. As crianças e idosos são os que mais sofrem com os efeitos da seca. 

Não morrem 200 pessoas vítimas da seca num mesmo dia e em um só lugar, mas morre gente de sede e fome, diariamente, espalhada por todo o Nordeste. 

O desastre inesperado no Rio Grande do Sul mudou a rota dos políticos de Santa Maria e do País. A presidenta Dilma cancelou compromisso no exterior, e assim como ela, muitos outros. 

Rapidamente, uma nova política de segurança nos ambientes fechados está sendo elaborada por quase todos os Estados. Isso requer recursos humanos, estruturais e econômicos. Em menos de uma semana, aquilo que era periférico, sem nenhum interesse por parte dos governos, passa a ser prioridade em suas agendas e em seus investimentos. 

E no Nordeste? Por que a morte de crianças e animais, vítimas da seca, não comove os responsáveis dessa vergonha secular? Secular porque a seca é a identidade do Nordeste, sempre existiu e sempre existirá. Somente nesta estiagem, não apenas centenas de pessoas morreram, mas milhares em todo o Nordeste. 

Ainda não vimos saques nos supermercados, prédios públicos apedrejados, praças, avenidas e autoestradas bloqueadas pelas vítimas da seca, porque o Governo Federal, nos últimos anos, criou o “Bolsa Família”, que garante o mínimo necessário na mesa do pobre. 

Por outro lado, as consequências desses programas sociais nem sempre são benéficos. A acomodação toma conta do povo, tá bom assim, daí não manifesta nenhum interesse em lutar por políticas públicas sustentáveis, que garantam um Nordeste verde e produtivo, também em período de estiagem. Sim, é possível. 

Se no deserto do Saara, com um clima muito mais seco que o nosso, há água com abundância, há diversidade de plantações irrigadas, por que nossos governantes não podem garantir as mínimas condições necessárias para os agricultores sobreviverem sem tanto desespero durante a seca? 

Estamos exatamente há um ano do início desta última estiagem e os nossos governantes ainda não colocaram a seca como prioridade nos seus orçamentos e nas suas agendas. Por quê? Porque falta vontade política, falta humanidade, falta um Brasil para os nordestinos.

Lá no sul, achamos louvável a sensibilidade política diante do desastre de Santa Maria. Em menos de uma semana, políticos, especialistas, sociedade civil estão tomando atitudes ousadas no campo da segurança nos espaços públicos para evitar que não aconteça algo semelhante. 

Aqui no Nordeste, o pobre que vê a morte dos seus últimos animais, pede, até pelo amor de Deus, que os nossos representantes façam o mesmo, manifestem o sentimento de respeito e de solidariedade por eles, apresentando ações emergenciais para amenizar o desespero da nossa gente. 









Comentários

  1. Fiquei com os olhos rasos d'água ao assistir esses dias no “fantástico” uma matéria que falava sobre esse assunto. Era desesperadora a situação dos agricultores que perdiam seus animais...a seca no nordeste é sempre sinal de sofrimento para o sertanejo. Mas a falta de chuva também movimenta o meio político e o comércio das cidades atingidas pela estiagem. A chamada “indústria da seca” fatura alto com a falta de alimentos para os animais e de água para os moradores. Esse tipo de coisa não era mais pra existir e porque até agora não acabou? Porque os políticos corruptos não querem que isso aconteça, pois assim eles perderiam seus currais eleitorais, iriam deixar de trocar votos por caminhões pipa. Essa falta de vergonha, de respeito, de caráter, que são características desses políticos usurpadores da dignidade do sertanejo, já passou do tempo de acabar. Em pleno século 21, com todos os avanços tecnológicos é inadmissível que ainda convivamos com essa mazela social, fruto do descaso e do egoísmo de todos aqueles políticos que nada fizeram, ou pouco fizeram, ou se fizeram, não o fizeram com o intuito de dar fim a esse problema mas sim protelá-lo. É necessário dar um basta nessa situação uma vez por todas. Só que esse triste fato não é publicado na mídia nem nas redes sociais, sabe-se que quase 300 pessoas já morreram no nordeste por causa da seca, agora eu pergunto, quantas pessoas tem conhecimento disso? É lamentável e não dá pra medir qual sofrimento é maior, o lá de Santa Maria ou o daqui do Nordeste. As pessoas que estão pedindo doação de sangue, voluntários, enfermeiros,psicólogos e médicos para os atingidos na tragédia do sul. É o mesmo povo que esquece de pedir água, farinha, rapadura,e feijão para os atingidos na seca em todo nordeste. Lá em santa Maria creio que houve uma comoção nacional, com essa terrível tragédia e ações preventivas já estão sendo tomadas a respeito, agora eu pergunto quantas pessoas ainda vão ter que morrer com a seca no nordeste pra que seja feito algo concreto para a solução deste grave problema?

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