Mas, afinal, qual é o segredo do Brasil?


"Brasil, a fórmula do sucesso" foi  a primeira imagem que a Itália viu, ao  levantar-se da cama, nesta manhã de sexta-feira, na capa da "Internazionale", uma das revistas mais famosas do país. 

O subtítulo da mátéria de oito páginas reza: "enquanto nos Estados Unidos e na Europa a crise econômica piora e as desigualdades aumentam, o Brasil está construindo um modelo de desenvolvimento mais sólido e uma sociedade mais justa, não obstante a corrupção e a criminalidade".

Perdida na escuridão do túnel, a Europa se auto-questiona: "Como fazem os brasileiros para ter uma economia em crescimento, o déficit sob controle e o desemprego em queda?"
Todos sabemos que a Europa continua perdida e muito doente. Já faz um bom tempo que se encontra em estado grave na UTI, sem sinal de melhora, ao contrário, continua piorando. 

O Brasil, desde do estouro da bolha em 2008, para encarar a crise econômica mundial, tomou uma via radicalmente diferente daquela tomada pela Europa  e Estados Unidos. Talvez, naquele tempo, eles tenham pensado: Lula é um doido, no lugar de cortar gastos, faz é acelerar o crescimento, dando dinheiro ao povo, com os seus programas sociais, etc.

Aqui, a Europa escolheu uma via que a colocou em situação terrificante: preferiu ajoelhar-se diante da deusa mais odiada pela maioria dos europeus: a AUSTERIDADE. Faz 4 anos que vivo na Itália e a música, tocada diariamente pela mídia, é a mesma: "austeridade"

E a mudança? Nada. Reformas blocadas, déficit público disparado a mil, políticos sem créditos, economia em contínuo declínio. Isso porque a Europa, invés de querer salvar o povo, como fez o Brasil, preferiu salvar os números, os bancos, os autores da crise. 


A esperança do cidadão por mudanças já quase não existe. Os governos submissos aos bancos sugam dos mais pobres para tentar tapar o buraco negro. Consequências: cortes na saúde, na educação, nos serviços públicos; mais de trinta por cento da população jovem italiana desempregada e por aí vai. 
O sociólogo Manuel Castells é convicto que, enquanto a austeridade for a música da vez, a mudança que o cidadão deseja, dificilmente virá.

Mesmo com sinais de esperança vindo do novo presidente da França, a "austeridade" - divindade adorada pelos "apolíticos" tecnocráticos e odiada pelos cidadãos europeus - continua sendo a única medida usada pra sair da crise econômica. Até alguns dias atrás, Merkel e Sarkozy eram protagonistas dessa filosofia. 

Embora Hollande seja o oposto de Sarkozy, nas propostas anti-crises, Merkel não se rende, continua defendendo a bendita "austeridade", mesmo sabendo que a maioria dos europeus rejeita tal medicina, por ser uma receita imposta por uma "democracia" vinda do alto, cujos benefícios da mesma atingem somente aos senhores da casta.

Todavia, sinais de resistências do povo contra tais medidas tecnocratas/antidemocráticas são visíveis em diversos países da Europa. Aqui na Itália, as recentes eleições municipais em algumas cidades foram um sinal visível de rejeição à política "tecnocrática" de Monti, o atual governo italiano. Perderam os partidos de direita (lega nord, PDL e outros) e ascenderam o PD e o partido "cinco estrelas" este último, nascido de baixo, da organização nas redes sociais, ou seja, uma resposta alternativa para uma política que não representa mais o cidadão.

Como vemos nos jornais, também na Alemanha, Merkel perde popularidade. Os políticos no Reino Unido, Grécia, Espanha e Holanda estão sempre mais sendo rejeitados por seus cidadãos. Embora pudesse intervir bem antes, continuo acreditando que, um povo consciente politicamente é o melhor termômetro para medir a saúde de um governo. 

O jornalista americano, Nicholas Lemann, do The New Yorker,  para  escrever sua matéria, publicada na revista "internazionale" entrevistou 4 importantes personalidades políticas do Brasil: a Presidenta Dilma Rousseff, Lula, Fernando Henrique Cardoso e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. 

Destacarei a seguir, os pontos fortes da longa matéria feita por Nicholas Lemann:

Diz Lemann que o hiato entre ricos e pobres nos EUA continua alargando de modo preocupante, no Brasil, invés, diminui. Na última década, 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema, enquanto que nos EUA a taxa de pobreza obteve novo record. 


No Brasil, o déficit público  está sob controle e conta agora, após a descoberta do pré-sal, com uma das maiores fontes petrolíferas do planeta.

No Brasil, o Estado governa o mercado. Nenhum brasileiro definiria a livre iniciativa da economia de mercado como um valor sacro da sociedade. O governo é muito mais forte e presente do que aquele estadunidense. 

Lemann destaca três factores distintivos no Brasil: crescimento econômico (não acontece nos EUA e na Europa); liberdade política (não existe na China) e redução da desigualdade (não acontece em quase todo o planeta).

Com isso, não queremos dizer que o Brasil  já é o país das maravilhas. Ainda persistem certas doenças seculares: a corrupção sistêmica, a criminalidade, o carente sistema educacional, estradas e portos não funcionam bem.

Lá pelo meio da conversa, Lemann volta à pergunta inquietante dos italianos: Mas, afinal, qual é o segredo do Brasil?

A própria Presidenta Dilma Rousseff responde: "o objetivo principal do desenvolvimento econômico deve ser sempre a melhoria das condições de vida. Os dois conceitos não podem estar separados: a criação e a distribuição de riqueza levantam a estima das pessoas, porta o bem-estar pessoal e econômico". 

E acrescentou. "A fase na qual nos encontramos exige coragem e audácia". Devemos proteger a nossa economia, os consumos, o trabalho. Devemos proteger a indústria brasileira da concorrência desleal e da guerra do câmbio. As nossas indústrias podem contar com o nosso governo: estamos unidos com eles. Próprio como não concebemos o desenvolvimento sem inclusão social, assim, não concebemos sem uma indústria forte, inovadora e competitiva". 

Portanto, podemos dizer que reduzir a pobreza (tirar 16 milhões da miséria até 2014) e promover o bem-estar econômico são fórmulas básicas do sucesso do atual governo.

Dilma Rousseff enfatiza com orgulho ao dizer que "a nossa economia não é mais guiada por mãos externas, mas pelo próprio Brasil. Temos em mãos os instrumentos de autodeterminação que no passado eram presos nas mãos dos ricos".

A ascensão do pobre à classe média é o reflexo do crescimento com distribuição de renda. Dez anos atrás, cerca de 40 milhões de pessoas faziam parte da classe média. Hoje são 105 milhões. Em um país, portanto, dominado pela classe média, os cidadãos não pedem ao governo somente a eliminação da pobreza, da fome, da violência e da criminalidade. Querem escolas modernas, infra-estrutura, uma economia mais desenvolvida, salários mais altos e políticos honestos.


O jornalista americano Lemann, na sua viagem ao Brasil, entrevista também o  ex-presidente Lula. No Rio de Janeiro, conversa com o governador Sérgio Cabral. Em São Paulo, entrevista  Fernando Henrique Cardoso, no seu moderno apartamento, num dos bairros mais ricos da capital. Lemann pediu para Cardoso descrever o atual modelo político de Dilma. "Não saberei responder" disse o ex-presidente. 

Cardoso aproveitou para criticar o seu sucessor, Lula, dizendo que o mesmo administrou o país como um distribuidor de dinheiro, sem fazer nada para reforçar as bases da economia.

Enfim, após descrever alguns detalhes da militância política de Dilma, sobretudo, no período da ditadura militar, Lemann conclui sua matéria, sublinhando algumas fórmulas do sucesso do Brasil, reveladas nas palavras da própria Presidenta:

"Se queremos portar avante  a nossa política de distribuição de renda, devemos fazer de um modo que a economia continue a criar renda. Tiramos milhões de brasileiros da pobreza e os elevamos à classe média. Criamos, com muito esforço, o nosso mercado. Não teríamos jamais crescido se não tivéssemos reduzido as desigualdades", concluiu Dilma Rousseff.

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