"Sou um xenófobo sincero"


Se já era humilhante para um imigrante viver na Europa, piorou mais ainda com os efeitos da crise econômica, nos últimos anos. Na Itália, onde  30% dos jovens vivem à margem do mundo do trabalho, qualquer imigrante passa a ser visto como uma ameaça, um predador social.

O título deste artigo é uma auto-revelação pública que um jornalista fez, ao escrever, nesta semana, num dos jornais (Libero) de ideologia neo-fascista, de extrema direita, da mesma linha política do ex-primeiro ministro, Silvio Berlusconi. 

Pra ser honesto, gostei da afirmação "Sou um xenófobo sincero" do jornalista, pelo fato de ter tirado a máscara da hipocrisia. Na minha opinião, reconhecer que somos racistas ou xenófobos é o primeiro passo para uma possível mudança. Torna-se mais difícil  quando nos escondemos por trás de eufemismo ou, até mesmo, de instituições, sejam elas, políticas, acadêmicas, religiosas, etc…

Aqui, abro uma brecha pra conceituar o que é "xenofobia". Dos conceitos que li, escolhi o da CERD (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial) que define xenofobia como:

"Toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em motivos de raça, cor, origem nacional ou étnico que tem por objetivo anular ou menosprezar o reconhecimento, em condições de igualdade, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nas esferas política, econômica, social, cultural ou em qualquer outra esfera pública".

Esse conceito de xenofobia, aprovado pela ONU, desde 1965, é encarnado, ainda hoje, no comportamento de milhões de europeus. Essa é a conclusão que faço, após conviver quase quatro anos na Itália. As discussões racistas e xenófobas não estão somente na mídia, mas em todo lugar. Nos transportes públicos (metrô e ónibus), várias vezes, já testemunhei cenas horríveis de xenofobia por parte dos italianos. 

A ideia de que o europeu pertence a uma raça pura ainda é muito comum na cultura obsoleta de muita gente. A história recente deste continente, talvez, nos ajude a compreender o porquê da negação do estrangeiro em pleno século XXI. 

Primeiro, por ter sido o continente que colonizou o mundo (basicamente), portanto, quem não era europeu, pertencia a uma classe marginalizada e, segundo, como se não bastasse, no século passado, após ter sugado a riqueza dos países colonizados, a Europa, para purificar sua própria raça, matou milhões de estrangeiros.

Portanto, ter consciência desse recente passado europeu é fundamental pra entender a hostilidade do branco europeu frente à atual realidade imigratória.

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