Gratidão e Esperança


O homem inventou ciclos temporais (início de ano, de mês, de semana) pra criar a sensação de que a vida é um eterno recomeçar. Tal ideia pegou bem, basta olharmos o rebuliço no mundo todo com a comemoração do Ano Novo. 

Todos nós nos emocionamos no réveillon (termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar"). É verdade, nós despertamos, fazemos juramentos, propósitos, outros fazem uma lista de boas intenções pra o ano seguinte, outros juram não repetir os erros do ano anterior. 

E as promessas? Prometemos ser melhores, mais humano, mais fraterno, mais solidário. Sem contar, as pessoas que planejam mudanças radicais na vida, como, decidir se casar,  entrar na vida religiosa,  abraçar algum projeto a longo prazo e por aí vai. O certo é que, cada um pisa o primeiro dia do ano carregado de emoção e de muita esperança.

Pera aí, há também muitos que não sentem nenhuma emoção e não alimentam nenhuma esperança na virada do ano. No mundo, há milhões de famílias sem comida na mesa. Muitos se encontram em fase terminal nos leitos dos hospitais, sem esquecer as crianças abandonadas e os velhinhos que vivem longe do carinho dos filhos, presos nos abrigos, na solidão do abandono. As mães que sofrem por ver o esposo e filhos no mundo do desemprego e do vício (do álcool, das drogas ilícitas, da prostituição).

Graças a Deus, encontro-me na lista dos que têm mil razões pra festejar o réveillon (despertar). Estar em Roma, estudando, já  é  uma graça muito grande. Entro no quarto e último ano aqui na Europa. Daí, uma razão forte de estourar de alegria e de gratidão a Deus por essa oportunidade inédita de viver experiências novas em meio a uma realidade de igrejas e de culturas diferentes. 

Em nível acadêmico, foi decisivo. Fiz o estágio na redação da "Vita Trentina", fiz a pesquisa na área da minha tese (redes sociais) em Washington, meu projeto de tese foi aprovado, entre outros. Já estou no segundo capítulo e previsão pra apresentá-lo em junho de 2012.

Em nível geral, o evento que mais me impactou foi o fenômeno dos "indignados". Vivemos um ano marcado pela crise econômica, acompanhada também por uma crise ética, cultural e antropológica. Militantes, na maioria, jovens, ocupando ruas e praças de cidades de muitos países no mundo para protestar contra um sistema econômico e financeiro excludente e selvagem. E não só. Os indignados pedindo também uma nova democracia, um novo modelo de fazer política. Os sistemas de governos que estão aí não representam mais o povo, muito menos, suas necessidades básicas. 

Como pesquisador da informação através das redes sociais, avalio que, as primaveras árabes, a queda de alguns ditadores, o renascer da militância política a partir de baixo, do povo, especialmente, dos jovens, não teriam chegado ao nível que chegou, se a militância não tivesse tido acesso às redes sociais (blogs, twitter, facebook). 

Em nivel familiar, o momento mais sagrado vivido em 2011 foi o nascimento da minha sobrinha Laila Sofia

E a Igreja em 2011? A beatificação de João Paulo II e a Jornada Mundial da Juventude em Madrid foram os dois eventos de maiores repercussão na imprensa. No entanto, a mim, particularmente, o que mais me tocou foi a morte de pe. José Comblim, no mês de março: um missionário, um teólogo da libertação, um homem belga de uma espiritualidade profundamente libertadora e profética. Penso que, para nós, filhos do cristianismo, a virada do ano tem um sentido profundamente humano e divino. As esperanças se multiplicam porque a razão da nossa vida se fundamenta em uma fé que nos convida a sermos mais humano, compassivo e solidário. Creio que o apelo central para o cristão na virada de cada ano é abraçar com ousadia o projeto revolucionário de Deus que se manifesta em um menino, deitado em um curral, entre animais.

E os propósitos pra 2012? São muitos. O primeiro é concluir o meu mestrado previsto pra o final de junho. Depois, voltar pro seio de onde vim, minha família. Abraçar e beijar o povo que amo. Depois, colocar-me a serviço do povo de Deus na diocese de Mossoró. A lista de propósitos e de boas intenções continua, mas não a citarei aqui porque muitas das nossas intenções correm o risco de ficarem mofadas na gaveta, como recitava o nosso eterno Drummond de Andrade.

Um Feliz 2012 a todos e a todas que caminharam comigo ao longo deste ano: os que me ajudaram, que rezaram, que criticaram, que me ensinaram, os que são luzes, e, sobretudo, as pessoas que me motivam a continuar acreditando em um projeto de vida humano, livre e independente.


Curiosidade:
Por que Janeiro é o primeiro mês do ano. Quem inventou isso? Qual a origem do nome Janeiro?

A invenção de Janeiro como o primeiro mês do ano tem sua origem aqui, em Roma, pelo governador Júlio César, no ano de 46. a.C.

A origem do nome "janeiro" é uma homenagem a um dos deuses romanos de nome Jano, o deus dos portões. Jano tinha duas faces, que representavam o passado (Ano Velho) e o futuro (Ano Novo). 

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