Levaram minha irmãzinha pro cemitério, dentro de uma telha

Talvez eu tivesse quatro ou cinco anos de idade, quando levaram minha irmãzinha de um ano pra enterrar, no cemitério do Venha Ver, distante uma légua.

Pra mim tou vendo, o rostinho pálido e sereno da anjinha, os olhos semiabertos, minutos antes do último adeus. O corpinho dela em cima da mesa, deitada dentro de uma telha, na sala, do lado da janela, vestida com uma batinazinha branca, arrodeada de flores, aquelas bem cheirosas, lá do terreiro de vovô, conhecidas como “as fulô do casado São José”.

Na sala, um silêncio profundo, escutava somente o soluço de mamãe chorando. Na calçada, estava tio Davi, vovô e Luis de Ana, prontos pra ajudar papai à levar minha irmãzinha pro cemitério.

Mamãe se aproxima do anjinho, dá um beijo e cai no choro. Papai a consola, depois se aproxima da mesa, arruma sua filhinha bem direitinha dentro da telha, leva-a até a calçada, e, a passos lentos, sai em direção ao cemitério.

Eu, mamãe, minha irmã Evanda, meu irmão Gilvany, vovó e Ana de Luis ficamos na calçada da casa, olhando a anjinha sendo levada por papai e alguns homens.

- Comadre Nucy, sua filha morreu de que mesmo?

Mamãe enxuga as lágrimas com um cueiro de pano que estava dependurado no ombro – uma das lembranças da sua filhinha morta – e responde a Ana de Luiz.

- Sei não, comadre. Ela vinha com fastio ultimamente, sem querer comer, depois pegou a febre e não teve jeito. Fiz chá disso, chá daquilo, levei pra rezadeira e nada de ficar boa.

- É isso mesmo comadre, a gente tem que se conformar. Seja feita a vontade de Deus.

Não sei explicar, talvez eu esteja delirando, ou com saudade incurável de alguém que eu queria que jamais tivesse morrido. Por que logo ela, minha irmãzinha? Por que somente filho de pobre morre assim à toa? Uma febre? Diarreia? O que isso meu Deus.

Gostaria que algo de mais visível tivesse ficado como lembrança. Nada. Nem cueiro, nem roupa, nem muito menos, uma foto. Longe de qualquer sinal visível, resta recorrer à imaginação.

Hoje, no dia dos finados, me vem essa lembrança saudosa da partida de minha irmã pro cemitério. Um dia, quem sabe, a verei face-a-face e darei aquele abraço eterno e eternamente viverei ao lado dela.

Um beijo bem grande Rosilene, te amo. Assina, seu irmão Talvacy, aqui da terra.

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