15 de outubro em Roma: indignados instrumentalizados


Dois filmes, com histórias totalmente opostas, foram exibidos na jornada mundial dos indignados, 15 de outubro, em Roma. Num deles, fui um dos personagens da cena junto a outros centenas de milhares de pessoas, que caminharam em clima de paz e de fraternidade, manifestando suas indignações contra o sistema político e econômico que coloca em risco o presente e o futuro, bem como, o sentido da vida da geração presente e das futuras gerações.

O segundo filme, assisti quando cheguei em casa, por intermédio dos meios de comunicação. Neste segundo, eram poucos os personagens, talvez menos de 1% relacionado ao primeiro. Todavia, esse pequeno grupo – destruidores do objetivo dos indignados, autores do terrorismo criado nas ruas de Roma, da violência injustificada, dos carros queimados, de bancos apedrejados, de dezenas de pessoas feridas – foram, infelizmente, os vencedores do Oscar, ocupando, portanto, as primeiras páginas da mídia italiana.

“Sonhava vendo a praça São João de Latrão

– local final da manifestação – como a praça Porta do Sol em Madrid”, expressou chorando, uma jovem de Padova, no final do cortejo diante da Universidade da Sapienza. O sentimento de desencanto e tristeza expresso publicamente pela jovem, por não ter obtido o objetivo – aquele de transformar a praça São João de Latrão numa grande assembleia popular – representou a desilusão e a tristeza da maioria dos indignados que participara do cortejo.

É fato, que a mídia reduz a jornada mundial dos indignados em Roma a um insignificante grupo de jovens violentos – os black block, teppisti. Contudo, é fato também, que a violência de poucos não cancela, jamais, o espírito de fraternidade, de diálogo; a partilha do sentimento de indignação feito ao longo do cortejo, através de músicas, coreografias, reflexões, faixas, cartazes, caricaturas e diversas outras manifestações criativas.

“Há mais de trinta que vivo indignado com esse sistema econômico

e político, a crise vem de longe. Esta manifestação é, sem dúvida, o lugar justo para se indignar contra os criadores da crise”, disse Mario Zanguetta, presente no cortejo, 75 anos de idade, da cidade de Luca, um dos coordenadores da campanha para o congelamento do débito público italiano.

Gente de toda a Itália, de todas as idades, de todas as classes, deficientes em cadeira do roda, imigrantes, estudantes, todos unidos, tendo no coração mil razões para manifestar publicamente suas indignações.

Por que você trouxe sua filha? “porque esse governo que temos está destruindo, pouco a pouco, não apenas a nossa vida, mas está também, colocando em risco o futuro dos nossos filhos”, disse uma mãe com uma filha no colo, em meio aos milhares de indignados no cortejo.

Quem estava no meio da multidão pacífica viveu uma atmosfera realmente saudável, impossível transformar a experiência vivida em palavras. Jovens abraçados cantando músicas dos anos 60, casais de namorados de mãos dadas, pais caminhando com seus filhos, professores, etc.

As pessoas que assistiam ao cortejo das portas e janelas dos seus condomínios aplaudiam e revelavam abertamente o espírito de solidariedade por todos que participavam da manifestação.

É justo reconhecer e solidarizar-se pelos 99% que protestaram de forma limpa e pacífica, refletindo com maturidade cívica, ao longo do cortejo, os verdadeiros problemas que afetam a sociedade de hoje.

Penso que todos nós, que protestamos pacificamente, fomos feridos e instrumentaliza

dos pela mídia. O reflexo é de que, verdadeiramente, os meios de comunicação, na sua maioria, não respeitam o cidadão. Isso fica claro quando o cidadão é usado injustamente para satisfazer os interesses econômicos das empresas de comunicação. É mera utopia pensar que a mídia seja a voz da sociedade.

Se, na manifestação, éramos todos indignados com o sistema político e econômico vigente, ao chegar em casa, depois que soubemos da interpretação que a mídia fez sobre o evento, completamos a nossa indignação com o sistema comunicativo que impera no país.

Apesar dos 99% terem sido feridos pela violência de um grupo insignificante de jovens e por terem sido instrumentalizados pela mídia, a mensagem central dessa grande manifestação foi amplamente comunicada. Certamente, a mensagem não se encontra nas páginas dos jornais, mas na face dos centenas de milhares de indignados, homens e mulheres, crianças e jovens, de norte a sul do País.

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