A grande desconexão

Os governos dos países onde há revoltas já perderam a batalha das mentes. E essa foi feita através da internet

Um novo fantasma está assombrando os corredores do poder no mundo: a livre comunicação nas redes de internet. Ministros e ministras sem decências legislam, contratam policiais informáticos, ameaçam, sancionam, encarceram e, em alguns casos, como o Jalid Said em Alexandria, matam por publicar um vídeo no YouTube. Fazem tudo isso porque o poder sempre teve o controle da comunicação. Agora, porém, o esforço é em vão. Embora castiguem o mensageiro, não conseguem interceptar a mensagem.

Os governos não têm um botão onde possam comandar as redes. Se blocam o Twitter e o Facebook, como fez Mubarak no Egito e fazem o mesmo na China, existem outras redes independentes, pequenos provedores que oferecem vias de interação comunicativa.

Qualquer reação de bloqueio por parte de governos, provoca rapidamente um vírus de solidariedade dentro da comunidade Web. Pessoas, instituições e empresas usam o máximo da criatividade para conseguirem romper a proibição feita pelo poder. O Egito foi um exemplo disso: através de conexão alternativa, telefones inteligentes, máquinas de fax, redes de hackers, etc.

No ápice das manifestações do Egito, Google e Twitter organizaram um sistema speak-to-tweet mediante o qual uma chamada telefônica internacional era registrada por uma secretária eletrônica e a mensagem era então reenviada automaticamente ao Egito como Twitter, identificado por um hashtag. Como o Twitter estava bloqueado, a empresa criou uma nova conta @twitterglobalpr específica para explicar o uso do speak-totweet no Egito. Embora tivessem somente uns 14.000 usuários de Twitter, as mensagens recebidas eram enviadas dentro do país para diversos meios: fax, panfletos distribuídos nas ruas e rádios alternativos.

No dia 1 de fevereiro, Mubarak restabeleceu a conexão porque percebeu que tal medida havia custado um absurdo e, o pior, sem obter nenhuma utilidade. Um estudo da OCDE cifra o custo econômico da desconexão da internet em 90 milhões de dólares.

Porém, ficou claro que o restabelecimento do serviço de internet só aconteceu quando Mubarak deu-se conta do perigo das redes sociais, ou seja, quando o efeito das redes já tinha saído do cibespacio para o espaço urbano. O povo já havia perdido o medo. Aí foi quando Mubarak decidiu usar a dinâmica de sempre: violência e intimidação. Como sucedeu também em Iran, Bahrein, Síria, Yemen, Argélia, Jordânia, Marrocos, Kuwait e agora, em Líbia.

Todavia, afirma Castells, os governos já haviam perdido a batalha das mentes. E esta foi decidida nas redes de internet. Disso, estão tomando conhecimento no mundo todo, incluindo os países democráticos.

Síntese de um artigo de Manuel Castells publicado hoje no "Lavanguardia.es"

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