O PAPA FOI INSTRUMENTALIZADO

O pior aconteceu nesse clima tenso, nervoso e apixonado de 2º turno: envolveram o Papa no nosso processo eleitoral. Nunca vi, em minha longa vida de bispo, um acontecimento como este. A coisa já está feita. Agora é esperar pelas conseqüências...

O que houve de errado e que está criando uma grande perplexidade em nossa Igreja? Todos nós bispos sabemos que o ministério do Papa inclui uma relação direta com todos os féis católicos e com cada um deles, com plenos poderes. É seu carisma. Os comentários de vários bispos ao discurso de Bento XVI salientam isso. Sabemos, por outro lado, que no governo da Igreja são reconhecidas, como legítimas, as instâncias intermediárias, com poderes definidos pelo Direito canônico. Estas instâncias agem freqüentemente, com sabedoria, em base ao princípio de subsidiariedade, o que garante à Igreja um clima harmonioso e respeitoso levado pelo espírito de serviço, de comunhão e de colegialidade. Por esse princípio é dispensável o recurso à instância superior quando a instância colegiada pode resolver o problema, principalmente em casos complexos e espinhosos.

De fato, depois das denúncias contra a candidata Dilma Rousseff, por causa do aborto, houve apelos à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esta, por sua Presidência, respondeu logo reafirmando “que a CNBB não indica nenhum candidato, e que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão”.

Houve um atrito, pela imprensa, entre Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales e D. Luís Bergonzini, bispo de Guarulhos. Dom Bergonzini, não satisfeito, talvez, com a nota ponderada da Presidência da Conferência tomou pessoalmente a decisão de recorrer diretamente ao Papa, com farta documentação, conforme ele declara a 12 de outubro.

Eis aí perigo! E já está armado. Ninguém nega este poder do Papa. O que causou estranheza a muitos de nós irmãos bispos foi o fato de envolver de forma simplista e apressada a pessoa do Papa numa conjuntura complexa, delicada e apaixonada, como esta do Brasil, às vésperas da eleição do 2º turno. A coisa pareceu até golpe de última hora, sem tempo de discutir o assunto. Isso tem antecedentes. Foi o golpe dado pela TV Globo no Lula, após o debate com o Collor, garantindo a este uma vitória fácil. Agora é possível que, no quadro de uma população majoritariamente católica, diante dos temas das imagens religiosas, do ensino religioso nas escolas, da moral do aborto, com as bênçãos do Papa, acabe saindo vitorioso o Serra, e derrotada a Dilma.

Afinal, estão em jogo só duas pessoas. Não há alternativa. O voto nulo nem é questão. Ou ganha a Dilma ou ganha o Serra. Em outras palavras a eventual retirada dos votos da Dilma significa claramente transferência de voto para o Serra e, provavelmente, a sua vitória.

Era uma vez uma mulher surpreendida em adultério. Congregaram-se contra ela várias pessoas importantes da cidade para apedrejá-la, conforme a lei. Era só ela, mulher, não o varão parceiro do adultério. Foi aí que irrompeu da multidão a voz enérgica e inesperada de um Profeta dizendo: “atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”.

A pergunta incômoda que está sendo levantada por toda parte é a seguinte: O Papa foi corretamente informado do que vai acontecer no Brasil com a vitória do Serra? Teve notícia do que as bases camponesas, indígenas, quilombolas, as organizações das mulheres e dos pobres estão esperando nesta hora?

Perguntaram ao Serra: “você vai fazer reforma agrária” Resposta: “vou fazer sim, mas sem o MST”. Muitos de nós temos lembranças amargas da pomposa organização do campo na Ditadura militar, porém com a criminalização e a dura repressão das organizações sociais dos camponeses. No governo FHC não foi diferente. É o modelo em que o Serra se espelha. Falam tanto em vida, porém, para o projeto que o Serra assume como seu, a vida não entra como fundamento ético, menos ainda como prioridade política. Para que tudo esteja a serviço do mercado capitalista globalizado, o aprofundamento e alastramento da miséria e a devastação da Mãe Terra contam, no seu projeto, apenas como “custos naturais do progresso”. A busca do progresso vem junto com a transformação, da água, das matas, da energia, enfim, de todo o acervo nacional em mercadoria que passa a integrar o patrimônio privado da minoria rica. Com relação ao aborto, o atual pomo da discórdia, nada garante que o Serra não liberalize a legislação sobre o aborto. Com efeito, foi assim que ele, o Fernando Henrique Cardoso e tantos outros “neoliberais” fizeram nos oito anos de governo.

Para terminar relembro o belo gesto de congratulação da Presidência da CNBB com o povo brasileiro pelo exercício da cidadania no 1º turno das eleições gerais. Como não formular votos para que hoje. mais do nunca, o povo brasileiro faça valer sua condição de sujeito democrático, adulto e autônomo neste histórico 2º turno?

Dom Tomás Balduino


Comentários

  1. Ola PAdre! Como está o Sr ? Sou de Mossoro e acompanho o seu Blog e agora o tt! Parabéns, bom saber que nossos sacerdotes fazem uso das ferramentas de comunicação modernas! Padre estava querendo seu email mas como não consegui vou te perguntar aqui mesmo,me desculpe pela intromissão, mas estou indo a Roma próximo ano e estava querendo saber qual o melhor bairro para se hospedar se é perto da estação Termini ou em algum lugar proximo da Piazza Navona ou di Spagna? Perto da Termini é perigoso ou da para conhecer Roma de pés tranquilo ? Sei que é dúvida turistica masss me ajuda nesta. Agradeço desde já. Abraço

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