Julho na Espanha

Visitar um novo país é, antes de tudo, entrar em uma nova cultura, desbravar novas terras, falar nova língua e, claro, fazer novos amigos.

Tentarei descrever, brevemente, a minha experiência vivida durante este mês em Salamanca (conhecida com a pequena Roma espanhola) e em algumas cidades da região.

No primeiro dia, tive o prazer de ser acolhido na estação de trem por três brasileiros, todos doutorandos da antiga e famosa Universidade de Salamanca: o casal mossoroense, David Leite e Vilani e pela soteropolitana Zanna, uma amiga de um coração do tamanho da Bahia.

O objetivo principal da viagem à Espanha foi para o estudo da língua. Todos os dias, de 10 às 14h, participava das aulas de gramática e conversação. Das línguas que balbucio, o espanhol está sendo a menos difícil. Na escola, conheci muitas pessoas de países diversos. Essa é a melhor parte: ouvir cada aluno contando um pouco da cultura de seus respectivos países.
Em minha classe, a maioria era da China e do Japão. Tinham também dos USA, Inglaterra e Suíça. Gostei muito da pedagogia utilizada pelos professores. Amei, especialmente, os passeios turísticos e os momentos culturais promovidos pela escola.

O último suspiro gótico
Uma das belezas que encanta aqui em Salamanca são as antigas Igrejas. A principal é a catedral nova, do século XVI, conhecida pelos arquitetos, como a catedral do último suspiro gótico, isto é, a última de estilo gótico construída na Espanha.

Outra que me deixou fascinado foi a Igreja da Puríssima (Maria Puríssima), estilo barroco, do século XVII. Sua planta tem forma de cruz latina, com duas capelas nas laterais. No centro, uma cúpula, com característica italiana. Porém, o que mais me encantou foi conhecer a sabedoria, a mística e a sensibilidade humana e profética de Padre Frutuoso, pároco da Puríssima.

Por intermédio de David Leite, amigo do padre, tive a oportunidade de concelebrar naquela Igreja e beber da lucidez espiritual e humana de Pe. Frutuoso. Logo, no segundo dia que o conheci, nos convidou (eu, David e Vilani) para um dos tradicionais bares de Salamanca. Lá, ele nos deixou à vontade para comer, beber, animado ao som das suas idéias, seus pontos de vista sobre a Igreja, o mundo, etc.

Falou-nos com muita serenidade da sua dedicação e amor pela Igreja, bem como, das suas esperanças e desilusões vividas ao longo do seu ministério. Reconhece livremente que a Igreja está perdendo o seu dinamismo profético e libertador; que a mesma está retomando o olhar ad intra, isto é, uma comunicação voltada para um público restrito, que se resume basicamente aos poucos que ainda estão no interior da Igreja, cuja participação é cada vez mais envelhecida e acanhada. Lamenta em assistir à Igreja de Roma perdendo o foco da sua identidade e da sua missão, tão bem expressa pelos padres do Concílio Vaticano II. Entre esses padres, ele lembrou com muita saudade, do nosso pastor Dom Hélder Câmara, com quem teve a oportunidade de hospedá-lo, aqui, em Salamanca.

Pe. Frutuoso, embora esteja na casa dos setenta, continua protagonizando diversas atividades na Diocese de Salamanca. Foi professor de letras clássicas durante muitos anos e, atualmente, é coordenador diocesano do setor de Comunicação. No final do nosso bate-papo no bar, próximo da sua Igreja, ele presenteou-me um livro de poesias que acabara de escrever. O título é: “Ai se eu pudesse! Uma aproximação da chama de amor viva de São João da Cruz”.

Seu carisma pastoral é fortemente ligado à integração da espiritualidade com o trabalho social. Tem, no seu sangue de pastor, um cuidado preferencial pelos mais pobres. Na cidade e região, ele é muito amado e respeitado. Expressa em suas homilias uma profunda liberdade interior. É altamente atualizado nas questões de ordem política e social.

Em um dos domingos que concelebrei com ele, fez duras críticas às três esferas de governo: local, provincial (Estado) e Federal.

Domingo passado, ele foi muito incisivo e claro com relação ao jogo abusivo e manipulador do mercado. Fez um paralelo entre o deus da cultura ocidental (o mercado), que transforma o homem em objeto de consumo e o Deus dos cristãos. Concluiu a homilia dizendo que, oxalá (expressão muita usada em suas homilias) os cristãos tivessem a coragem de responder não às ciladas do "deus mercado", buscando seguir ousadamente os ideiais de Jesus,  através da vivência dos valores que exaltam a dignidade humana: a família, o diálogo fraterno, a justiça, a tolerância e a sensibilidade pelos mais excluídos.

Fecho este envergonhado comentário sobre Pe. Frutuoso, citando um fragmento do seu livro de poesias. “As profundas cavernas do sentido são a alma com fome e sede do infinito”.

A Praça Maior: centro da vida urbana
Uma tradição de dá inveja a todo turista estrangeiro: as praças coloridas de gente. Entre elas, tem a praça mãe, conhecida como a Praça Maior, rodeada de bares, sorveterias, cafeterias, restaurantes. Localizada no centro da cidade, as pessoas para irem ao trabalho, à Igreja, à Universidade, etc., passam diariamente pelo coração da praça.

Nos finais de semana, ela fica mais bela, completamente cheia. Não somente em Salamanca, mas também, como pude ver em visita a outras cidades, a tradição da “plaza mayor” é é algo que se estende em todo o país, faz parte da identidade cultural de cada cidade.

Todos os dias, fazia questão de caminhar em algumas praças, próximas da casa onde estave hospedado, somente para contemplar a alegria, o espírito fraterno, a amizade, e os altos bate-papos das pessoas sentadas nos bancos das praças.
Jovens em roda de amigos, crianças correndo e brincando nos parques, homens e mulheres sentados nos bancos, lendo romances, jornais. Porém, o que mais me chamou atenção foi o estilo de vida das pessoas anciães. Diariamente, na boca da noite, os idosos saem de suas casas e vão passear nas praças e parques dos seus respectivos quarteirões. Era belo ver as praças vivas, dinâmicas, seguras, um ponto de encontro do bairro. O mais emocionante era ver a liberdade dos idosos. Muitos acompanhados com suas bengalas, outros em cadeiras de rodas, todos, dignamente, bem cuidados. Embora carreguem suas limitações físicas, todos têm autonomia e liberdade para viverem com dignidade até os últimos dias de vida.

A primeira Universidade da Espanha
Em Salamanca, declarada pela Unesco, patrimônio da Humanidade, está localizada a Universidade pioneira da Espanha e a quarta do mundo. A cidade conta com um dos maiores patrimônios arquitetônicos do país. As Igrejas medievais, a casa das conchas, a praça maior, o convento de Santo Estevão e, claro, a beleza estupenda das universidades. Neste período de verão, a cidade fica colorida de turistas. Aqui é, também, muito famosa pela originalidade da língua espanhola. Foi nesta região de Castela (Castilla) que nasceu a língua espanhola. Por isso, gente do mundo inteiro, escolhe Salamanca para o estudo do idioma.

Os bares de Salamanca também entraram no meu encantamento. Habitualmente, quando se pede uma bebida, seja vinho, cerveja ou qualquer outro tipo, vem acompanhada com “tapas ou pinchos” e algumas fatias de pães.  Chamou minha atenção o modo acolhedor e respeitoso como cada cliente é acolhido. Porém, o que me impressionou foi ver o bar, não como um mero espaço de beber todas, mas, como lugar de encontro familiar. Avós, pais e filhos bebendo e comendo suas tapas (tira-gostos) nos tradicionais bares da cidade. É, de fato, uma cena belíssima.

Outras cidades
Dentre as cidades que visitei, gostaria de destacar três delas: Ávila, Alba de Tormes e Tordesilhas.

Ávila é considerada como a cidade de "cantos e de santos". Hoje, ela é mais caracterizada por preservar uma muralha medieval completa. Visitei-a porque queria pisar na terra de dois grandes místicos do cristianismo, São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus.

Alba de Tormes é a cidade onde se encontra o sepulcro de Santa Teresa de Jesus. Lá, Teresa viveu seus últimos meses de vida. Preservam com muito cuidado as roupas, pertences pessoais e os livros de poesias da Santa. Vi, além da cela onde ela morreu, o coração e um braço da Santa, preservados como relíquias.
Outra cidade que explorei foi Tordesilhas, lugar do tratado entre os reis de Portugal e Espanha, no dia 7 de junho de 1494, cujo compromisso era estabelecer a divisão das terras recém conquistadas na América. No museu do tratado, pude ver muitos objetos pessoais de Cristóvão Colombo, usados na sua primeira viagem marítima para o “novo mundo” em fase de descobertas: bússola, compasso, cartas e alguns documentos originais usados no acordo pacífico entre os dois reinos.

Além do museu do Tratado, visitei outros pontos turísticos como: mosteiro de Santa Clara, Igreja de São Pedro, Igreja de Santiago e a Praça Maior do século XVII.

Volto para Roma, levando na mala, inesquecíveis recordações de um pouquinho daquilo que pude visitar aqui na Espanha. Aproveitei o máximo das novidades vividas: estudo da língua, pessoas amigas, lugares, comidas, festas, etc.

Enfim, o sentimento que aflora agora é, somente, de gratidão: a Deus, em primeiro lugar, a minha amiga Zanna, que garantiu minha hospedagem e o apoio do querido casal mossoroense, David Leite e Vilani. Quiçá, nas férias do próximo ano, retorne mais uma vez. 

Comentários

  1. Nogueira de Mossoró18 de setembro de 2010 11:59

    Padre Talvacy estamos felizes de sabermos que o senhor está aproveitando bem seus estudos aí na Europa, cientes de que quando retornares prestará excelente trabalho em nossa diocese de Santa Luzia de Mossoró.
    Que Pe. chiquérrimo!!!!Parabéns!
    Volte logo seu padre estamos com saudades!

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