Por que o motivo da consulta não é o problema?

Introdução: Uma Ideia Contraintuitiva na Psicoterapia

Na psiquiatria e na psicoterapia, existe um mantra que repetimos incansavelmente: o motivo da consulta nunca é O problema. É uma afirmação contraintuitiva, talvez até chocante, e que precisa ser esclarecida. A depressão, a ansiedade, a fobia social ou o transtorno alimentar que levam um paciente ao consultório são, sem dúvida, um problema. Causam sofrimento real e, em casos extremos, podem ser fatais. No entanto, não são o problema fundamental. O motivo da consulta nunca é o problema.

Essa distinção muda radicalmente a perspectiva do tratamento. Ela nos força a desviar o foco do sintoma visível para mergulhar naquilo que o produziu: a história de vida da pessoa que está à nossa frente.

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1. O Sintoma como a Ponta do Iceberg

A melhor maneira de entender essa ideia é através da metáfora do iceberg. O motivo da consulta — seja ele TDAH, depressão ou anorexia — é apenas a pequena parte visível acima da superfície da água. É real, é perigoso, mas representa talvez a décima parte do que o paciente realmente traz para a terapia. A massa gigantesca e submersa, a verdadeira causa do sofrimento, permanece invisível a uma avaliação superficial.

O sistema de saúde ocidental, com sua obsessão por diagnósticos rápidos e tratamentos focados em sintomas, age como o Titanic. Ao fixar-se apenas na ponta do iceberg, ele inevitavelmente colide e afunda, porque ignora a imensa estrutura submersa que constitui o problema real. Focar apenas no motivo da consulta é como tratar a febre, mas ignorar a infecção que a causa.

2. Então, Qual é o Verdadeiro Problema?

Se o sintoma não é o problema fundamental, onde ele se encontra? A resposta está em uma mudança crucial na pergunta que guia a terapia. Abandonamos a pergunta médica tradicional — "O que você tem?" — e adotamos a pergunta psicoterapêutica essencial: "O que te aconteceu?".

O problema real não é um diagnóstico, mas uma biografia. É a história pessoal que não foi escutada, uma sucessão permanente de experiências adversas que começou quando seus pais se conheceram. Com base no que os pacientes nos ensinaram ao longo de décadas, podemos delinear os componentes dessa massa submersa:

  • A Biografia e as Experiências Adversas: O verdadeiro problema está na história de vida do paciente. Trata-se de uma sucessão de experiências adversas e traumáticas que, metaforicamente, começaram "quando seus pais se conheceram". É um acúmulo de desditas que moldou a maneira como a pessoa experiencia o mundo e a si mesma.
  • Emoções Não Expressas: O problema está naquilo que o paciente nos ensina quando lhe damos espaço para falar: "estou triste, estou enfadada, tenho medo". É um conjunto de emoções que ele não consegue verbalizar, o que chamamos de "alexitimia": a falta de palavras para os sentimentos. O sofrimento se manifesta em sintomas porque não encontra uma saída através da linguagem.
  • O Trauma Não Dito: Se nos nossos arquivos clínicos não consta que ao menos 40% a 50% dos nossos pacientes tiveram uma experiência sexual traumática na infância, é porque seguramente estamos fazendo nosso trabalho mal. O problema central, em uma porcentagem esmagadora de casos, são experiências de abuso ou negligência que nunca foram contadas. O paciente sabe que seu sofrimento atual está ligado a esses eventos, mas o silêncio perpetua a dor.

3. A Falha do Sistema: Tratando Etiquetas, Ignorando a Dor

O sistema atual se concentra em aplicar rótulos do DSM-5 (Transtorno de Ansiedade Generalizada, TDAH, Transtorno Bipolar) e tratar essas etiquetas, em vez de abordar os conflitos humanos que as originam. Ao fazer isso, atuamos como ventiladores que dissipam a fumaça enquanto o paciente continua queimando por dentro. Esse foco em rótulos e bioquímica torna-se o mecanismo perfeito para evitar a pergunta fundamental: "O que te aconteceu?".

  1. O Desmascarar do Mito da Serotonina: A influência da indústria farmacêutica consolidou a ideia de que a depressão é um "desequilíbrio de serotonina". Essa afirmação é um dos maiores inventos de marketing do século XX e uma mentira brutal. A alteração na serotonina é um efeito da depressão, não sua causa — assim como a febre é um efeito, e não a causa, da infecção. Tratar apenas a serotonina é ignorar a vida da pessoa.
  2. A Preferência por Ser "Doente" em Vez de "Infeliz": Culturalmente, tornou-se preferível ser rotulado como "doente" do que ser visto como "infeliz" ou, pior ainda, "revolucionário". A medicalização do sofrimento serve para controlar o mal-estar social, transformando uma resposta potencialmente adaptativa a um ambiente doente em uma disfunção individual.

4. O Paciente Sabe: A Verdade Não Pensada ("Lo Sabido Impensado")

O psicanalista Christopher Bollas cunhou um conceito precioso: "o sabido impensado". Ele descreve algo que vemos todos os dias na clínica: os pacientes sabem, em um nível implícito e corporal, a origem de seu sofrimento. Eles sabem que sua dor está conectada à sua história, mas não conseguem pensar conscientemente sobre isso ou articular em palavras.

Nesse contexto, o papel da psicoterapia é simples e profundo: ajudar o paciente a "pensar sobre aquilo que ele já sabe". O terapeuta não ensina uma verdade nova; ele cria um espaço seguro e uma relação de confiança para que a verdade do próprio paciente possa emergir e ser nomeada. O corpo, que nunca mente, torna-se o veículo para essa verdade não pensada, manifestando em sintomas o que a mente não consegue expressar.

5. O Caminho para a Cura: Do Sintoma à História

A cura, portanto, não está em eliminar o sintoma, mas em compreender sua mensagem e torná-lo desnecessário. Esse caminho se baseia em três pilares:

  1. A Reparação pela Relação: O que foi quebrado na relação (nos vínculos primários, com as figuras de apego) só pode ser reparado na relação (terapêutica). O objetivo central do tratamento é criar uma "base segura", um vínculo onde o paciente se sinta visto, ouvido, respeitado e querido. É essa conexão que repara.
  2. Dar a Oportunidade de Falar: A cura começa quando damos ao paciente a oportunidade de falar sobre sua experiência traumática. Não perguntar sobre o trauma por medo de que o paciente sofra é um disparate. Cada vez que perdemos a oportunidade de explorar uma experiência traumática, estamos retraumatizando o paciente. É o silêncio que perpetua o dano, não a palavra.
  3. A Conexão Final: Quando o paciente pode finalmente colocar em palavras sua solidão, a injustiça que sentiu, o abandono e a dor; quando pode chorar por aquilo que não pôde ser chorado na infância, o sintoma perde sua função. Deixar de comer, vomitar, sentir pânico ou se deprimir deixa de ser a única forma de comunicar o sofrimento. Ao ser escutado, o sintoma pode, finalmente, desaparecer.

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Conclusão: Olhe Além do Rótulo

O motivo da consulta é um grito de ajuda. É um mensageiro, mas não a mensagem completa. Como diz o jornalista Johann Hari, a depressão não está na sua cabeça; está na sua vida. Para promover uma cura verdadeira e duradoura, é um imperativo ético e moral olhar para além do diagnóstico, do rótulo e do sintoma. É preciso olhar para a biografia, para a história pessoal que não foi escutada. É lá que reside tanto a origem do problema quanto a chave para a verdadeira libertação do sofrimento.

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