Por que "Most" é um filme religioso?


Se um dos objetivos principais da religião é ajudar as pessoas a dar um sentido à vida, através de narrativas, ritos, símbolos, tradições, então, podemos afirmar, inicialmente, que o filme most (a ponte), dirigido por Bobby Garabedian, tem uma profunda natureza religiosa. 

A verdadeira relação amorosa (ágape) entre o pai e o filho e a atitude heroica do pai em entregar o próprio filho pra salvar os passageiros do trem (humanidade) revelam claramente a missão principal das religiões, de modo particular, do cristianismo.

Se você leu até aqui, talvez não tenha encontrado dificuldade pra entender o conteúdo deste artigo. Todavia, para poder haver uma melhor compreensão do texto abaixo, recomendaria, antes, assistir ao filme "most" (30min). Tendo assistido, podemos caminhar juntos e extrair a mensagem religiosa presente no filme, observando as cenas mais significativas, a partir de três vertentes: 


1. A relação autêntica e transparente entre Pai e filho

O filho, com a sua identidade amorosa, transforma tudo em relação verdadeira. Até mesmo a estrela quando pisca, diz ele ao pai, é sinal de relação: “toda vez que você vê a estrela, significa que alguém está pensando em você”. A relação autêntica e pura do filho transforma a vida do próprio pai, que, inicialmente, revelava sentimento de tristeza. 

O poder do amor vero, transparente, sem máscara é profundamente vital e revolucionário em qualquer relação. Quanto maior e mais verdadeira é a relação, mais cresce a necessidade de estar juntos. Esse desejo do “contato” e da relação amorosa entre o pai e o filho acompanham todo o filme. 

Isso é visível, inicialmente, nos dois apelos que o filho faz, antes de dormir. “Pai, posso trabalhar com você amanhã?” e, após o pai beijá-lo e desejar boa noite, o filho faz mais um apelo: “Pai, você poderia ficar mais um pouquinho comigo?”. 

Outra cena onde se revelam a sensibilidade e a compaixão do filho dá-se quando ele, ao sair da escola, testemunha a relação de conflito entre um casal. Pelo seu olhar, percebe-se que a criança toma pra si a dor do homem que se encontra jogado na rua. 

2. A relação inautêntica e superficial entre as pessoas

Se de um lado vemos a relação verdadeira, fruto do amor autêntico, do outro, vemos a relação superficial, estereotipada e desumana. Destaco, inicialmente, a despedida do namorado que se surpreende com a resposta da namorada: “adeus, desculpe-me, eu sou muito bonita pra você... bye, bye”.

A ruptura da relação causada pela falta de respeito e de compaixão pela miséria humana se revela na cena onde a mulher expulsa o homem de sua casa e o deixa jogado no frio. “Quero que pegue as suas coisas e desapareça. Eu o amo, mas você é um louco”. 

Todavia, são entre os passageiros do trem, onde podemos ver, de forma mais explícita, a superficialidade, a indiferença, o isolacionismo, a preocupação de cada um com os seus trabalhos e problemas, etc. 

O alto grau de individualismo provoca a inexistência do outro. É visível quando o rapaz no trem, sentado ao lado de sua namorada, não é capaz, nem mesmo, de perceber a tristeza dela. Há várias outras cenas onde mete luz sobre esse aspecto da relação superficial/falsa. 

3. A relação do pai e filho com a jovem viciada em drogas 

A jovem, embora fosse uma viciada no consumo de drogas, era movida por um grande sentimento humano, de afeto e cuidado pelas pessoas. Logo no início, da janela do trem, ela faz uma criança sorrir. Outra cena é quando sua amiga a encontra se drogando na rua. Ela ao ver a amiga triste e preocupada, comove-se e pede pra não se preocupar, beija-a e sai. 

Somente a jovem viciada na droga (a pecadora) percebe a dor do pai que chora desesperadamente pela morte do filho. Face a face com o pai, ela, uma vez com problemas, vê a si mesma, ou seja, ela se descobre e se conhece quando percebe o sofrimento do outro[1], causando assim sua transformação radical. A jovem, que antes, não encontrava sentido pra vida, volta a viver felizmente, ao lado do seu filho. 

Enfim, o filme, apesar de ser bastante dramático e de não fazer referência direta a nenhuma divindade, pertence ao gênero religioso, por revelar explicitamente os valores perenes, que portam sentido verdadeiro à vida. 

Especificamente, para o cristianismo, o filme revela a importância de viver em comunhão com os outros, em comunidade, numa relação autêntica e sincera, sem hipocrisia: semelhante à relação do Pai com o Filho.[3] 


[1] “A descoberta de nós mesmos acontece enquanto descobrimos o outro". 
Franco LEVER – Fabio PASQUALETTI – Valentin A. PRESERN, Dai loro frutti li riconoscerete. Comunicazione, coerenza, azione, Roma, Las, 2011, 25. 
[3] “Eu e o Pai somos um” João 10,30.

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